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a carne mais barata

A artista e perita criminal Berna Reale apresenta “Ginástica da Pele”, performance que questiona nosso falido sistema prisional, que pune sem questionar ou investigar, principalmente, os encarcerados pretos, pardos e pobres que estão à margem da sociedade

Texto_Ana Paula de Assis 
Fotografias_Victor Reale 
Agradecimentos_Galeria Nara Roesler

Os tempos difíceis em que vivemos dá mostras que o racismo em escala exponencial faz o corpo negro clamar por resistência. A pergunta que não quer calar é: até quando suportaremos e teremos que responder por um problema que não é nosso? O recorte racial abarca desde jovens que estavam se divertindo em um baile funk, na favela de Paraisópolis, região sul de São Paulo, e tiveram, covardemente suas vidas ceifadas com anuência das forças do Estado. Também passa pelo não direito, do povo preto, de ser visto com bons olhos em lugares onde a maioria tem a pele alva. Acreditem! Estas histórias roteirizam o nosso cotidiano. Recentemente passei por um episódio destes num restaurante no centro de Sampa, que se vende como descolado ao servir no menu pratos da nossa ancestralidade, quando na prática opera para manter pessoas com a tez igual a minha restritos à cozinha, varrendo o salão ou esquentando o umbigo na grelha. Não importa se esteja nos trópicos ou nos castelos da realeza. Alguém em sã consciência abriria mão dos privilégios da Coroa britânica, tal como fez, corajosamente, a duquesa de Sussex? O calvário do preconceito racial sempre foi uma constante na trajetória de Meghan Markle. Desde que a moça pisou nos palácios reais a monarquia pouco fez para blindá-la deste câncer chamado RACISMO. Ainda assim, como o sistema tem regras sofisticadas em que as jogadas se alternam com a partida em movimento, a opinião pública já elegeu um lado para chamar de seu e, infelizmente, não é em defesa de Meghan. A imprensa também teve seu papel ao fomentar as picuinhas e reforçar comparações entre as duquesas: uma menos abastada e filha de mãe negra versus a branca dondoca (Kate Middleton) de família rica que desde o início se dispôs a rezar dentro da cartilha monárquica. O “Megxit” é outro termo determinante para satanizar com requintes de vilã e jogar a culpa pela ruptura dos preceitos tradicionais palacianos no lombo de Meghan. Ela não tem o direito de querer levar uma existência mais privada e sem grandes alardes? Por que o peso deste fardo precisa recair sobre Meghan? Seja em Buckingham ou na periferia, o corpo negro é sempre o mais apontado e alvo das mais variadas injustiças. Temos que ocupar e resistir, sim, mas é inegável que estes verbos tornam-se cada vez mais difíceis de serem conjugados.

Berna Reale
Do lado de cá do Equador, em tempos de cerceamento da liberdade no campo cultural, fora do eixo Rio-Sampa, a paraense Berna Reale, 54, driblou todas as adversidades e dentro de um esforço hercúleo furou o bloqueio elitista das artes contemporâneas e se consagrou ao trilhar trajetória relevante com provocações, denúncias que convidam à reflexão sobre a condição humana. Berna, que debutou no circuito artsy pelas mãos do curador Paulo Herkenhoff, no salão “Arte Pará” tem a vida entrelaçada pelos universos criativo e o da perícia criminal. “Tive a ideia de fotografar vísceras humanas para colocar em boxes com backlight dentro do mercado de carne da cidade de Belém. Obtive autorização e fiquei quase oito meses indo nos fins de semana esperar a necropsia dos cadáveres para fotografar. Nesse tempo comecei a me interessar pelas histórias que os técnicos da remoção contavam aos auxiliares de necropsia, sobre os homicídios, mais do que pelos cadáveres em si. Os próprios funcionários, do Centro de Perícia, vendo meu entusiasmo me perguntaram por que não fazia um concurso para ser perita criminal. Lembro do meu espanto. Na  verdade era eu que nem sabia que uma artista poderia ser uma especialista, depois disso, todas as energias caminharam para que eu atuasse na área mesmo parecendo impossível”, explica. Polivalente, a sagitariana mãe de Angélica, 31, e Carla, 27, já exibiu exposições marcantes como “Palomo”, “Soledade”, “Americano”, “Ordinário”, “Cantando na Chuva” e “A Frio” em países tão díspares quanto Alemanha, China, África ou Canadá entre outros. “Ser uma das representantes do Brasil – na mais importante Bienal do mundo em Veneza –, eu diria que estavam loucos pois, na verdade, às vezes nem acredito que essa ‘caboquinha’, aqui do meio da floresta, conseguiu mostrar seu trabalho fora”, sentencia. Perguntada se a performance é o suporte que mais reverbera o seu estilo, a artista se esquiva: “Não penso que tenha um estilo (cataploft!). Penso que a performance é, hoje, uma das minhas formas de expressão, talvez a que mais goste de usar, porque me leva para a rua e faço parte da composição do trabalho”, ressalta. O último rebento da artista atende por “Ginástica da Pele”. Segundo Berna, até agora, foi a obra mais longa, difícil e emocionante de parir. Durante dois anos e meio, a composição que envolveu 200 pessoas, jovens na faixa etária entre 18 e 29 anos, joga luz no encarceramento injusto, no sistema prisional decadente, falho ao punir e prender sempre os que estão nas franjas da sociedade como os mais pretos, pardos, pobres e gays. “Tudo foi pensado para fazer sentido, por exemplo, os shorts que os rapazes trajam foram confeccionados numa fábrica penitenciária, onde os prisioneiros trabalham para diminuir suas penalidades. Quando comecei esse trabalho, o órgão Infopen (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias) se referia em seus dados, ‘a raça’,  agora se atualizou e corrigiu nomenclaturas e descreve alguns de seus dados como etnias/cor da pele”, ressalta. Será que temos algum avanço nessa questão carcerária?

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