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Vertigem industrial

Composto, produzido e arranjado pela “turma do Houssein”, uma das galeras mais descoladas e competentes do circuito artsy-design, o ensaio da coleção H18,-BWG de móveis de aço-carbono para a Volume C faz um review do mood industrial em preto, branco e verde, com androginia vintage e veneno-antimonotonia

Fotografias_Miro
Direção de arte_Thiago Batista e Houssein Jarouche
Moda_Michel Vendola/Vitorino Campos
Beleza_Dindi 
Modelo_Malu Bortolini
Design Gráfico_Estúdio 20.87 
Agradecimentos_Carla Ribeiro

Se render ao talento dos outros é a melhor qualidade de um revisteiro. Com uma proposta bastante self-made e altas doses de suor escorrendo na própria testa, raramente POP-SE publica um conteúdo que não tenha nosso envolvimento em todas – ou em pelo menos uma das etapas do processo. As exceções se justificam naquele clichê que reza que uma imagem vale mais do que mil palavras. Daí nos vestimos de replicadores, pulverizadores, difusores e meros divulgadores do conteúdo alheio, com muito orgulho dos colegas. Boquiabertos diante dessa produção geométrica-colorê clicada pelo papa Miro (nosso pé-quente autor da primeira e premiada capa de POP-SE, estrelada pela musa Vera Fischer), que marca o lançamento da nova coleção do artista plástico, designer e empresário Houssein Jarouche (todo poderoso por trás do selo Micasa, meca do bom e do melhor design contemporâneo mundial, com desdobramentos ainda mais ousados, como o Volume C, anexo à loja matriz), nossa única participação nessa história toda foi implorar para que eles deixassem a gente publicar. E que bom que eles deixaram.

Além do Miro, um timaço de primeira que chamamos de “a turma do Houssein” responde pelo projeto. Entre eles, Thiago Batista, jovem – e espetacular – diretor de arte com quem já trabalhamos em alguns projetos. 

A energia, vitalidade e originalidade da apresentação das peças (super bacanudas em seu coté neo-idustrial tricolor) faz muito a cabeça desses Decornautas que vos escrevem. Sobre a coleção, Klara Kaiser escreveu brilhantemente: “As referências mais fortes desta série H18,-BWG de móveis de aço-carbono de Houssein Jarouche remetem aos primórdios do design, nas primeiras décadas do século vinte. Foi então que, como resposta ao amplo rol de transformações (potenciais e efetivas) de ordem política, econômica e social do mundo pós-guerra, a arte foi convocada para participar da reconfiguração do ambiente construído.  E, se a escala dessa empreitada trouxe fatalmente para o espaço urbano e doméstico métodos, materiais, técnicas que antes se restringiam ao âmbito industrial, animava o processo, da mesma forma, um desejo partilhado de transformação social que demandava novos elementos de mediação – no campo do objeto, da arquitetura, e do urbanismo. Assim conta, entre outros, o arquiteto russo Anatole Kopp, em ‘Quando o Moderno Não era um Estilo e Sim uma Causa’. Mas se há sentido num retorno às motivações iniciais do design após um arco temporal já de cem anos de envergadura, isso não é meramente por curiosidade histórica. Deve-se à natureza no mínimo conturbada de sua trajetória desde então. Face aos ganhos inegáveis, mas também face a todos os equívocos, frustrações, erros e mal-entendidos que marcam esse caminho, há que se reconhecer, hoje, a insustentabilidade de processos produtivos apoiados em desenvolvimento tecnológico sem norte social. Ou, dizendo com outras palavras, assumir que, perante a gravidade do quadro socio-ambiental do mundo atual, cabe reafirmar a necessidade de processos industriais que saibam devolver aos produtos a dignidade que lhes é devida  pelo trabalho que neles se acumulou. Os objetos aqui apresentados da série H18,-BWG são móveis sólidos, duráveis, versáteis, e de acabamento primoroso. Eles se colocam assim à margem da roda-viva de modismos e decorativismos efêmeros. Colocam-se também, e pelos mesmos atributos, a favor de um ambiente de menor nível de consumo de matérias-primas, com menor taxa de rejeitos, e menos desperdícios. A paleta de cores desta primeira série H18,-BWG a composição em preto, branco e verde, é uma escolha pessoal. Ela permite, no futuro, outras combinações.” E que venham muitas outras coleções – e ensaios como este.

@micasavolb

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