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CUBA LIBRE

Um recorte pessoal e intransferível da escritora Erika Balbino sobre as contradições e peculiaridades de estar em Havana, a capital da ilha caribenha regida pela cartilha do pseudo comunismo – e esplanada por ele com referência aos orixás 

Texto_Erika Balbino 
Fotografias_Fernando Louza

De dentro do ônibus que me levaria ao centro de Havana, enquanto atravessava seus bairros, num supetão me dei conta: seria fatalmente enfeitiçada por aquela cidade, como se ali minha alma já estivesse sendo assentada em um amálgama feito de lama para Nanã.

Comecei a devorar Havana e seus habitantes em um rega-bofe antropofágico digno de Exu. Nesse delírio glutão, percebi que nada ali era intimista, o giro do mundo é coletivo. Giramundo. Já instalada, sentei-me ao tempo, saboreando o ir e vir, imersa em complexas contradições entre felicidade, autonomia, e autocrítica. A observação é uma paixão insaciável, que só pode ser devorada, digerida e humanizada mediante a confrontação da realidade. Dei-me o direito de fazer um elogio à preguiça. Aborrecer a pressa. No Malecón, bem ali, no limite da trincheira das ideias, um homem se ofereceu como guia. Começamos a perambular pelas vielas e becos, evitando os endereços postais, flanando pelas encruzilhadas, pelas entrelinhas e pelos hiatos que flutuam entre as coisas concretas. Conexões de um grande olho de Ojuobá. 

É importante não cair na armadilha de pensar que tudo em Havana está parado no tempo. Há um equilíbrio no caos que os cubanos administram de cabeça erguida. Tem-se a sensação de cada edifício desconstruído tem a impressão digital de Midas. Havana não se deixa esmagar entre passado e futuro. Havana não está perecível. É uma trama, um fio contínuo da história de um povo. Há um melaço no ar. Um remexer de tacho que lembra Anastácia, que remete à Bertoleza e que culmina em Obá. Um élan denso que serpenteia com Phedra de Córdoba e Alicia Alonso. Uma doçura exala das pessoas, perfumes de Oxum envoltos na fumaça dos charutos de uma grande defumação. Há uma sofisticação no manejo das coisas, na negação da opulência, não existe um lamentar-se de viver-se na era da insuficiência. Cuba cheira a açúcar, mas é radical como o facão que corta a cana. “Ser radical é ir às raízes dos problemas e a raiz do homem é o próprio homem”, disse Karl Marx. 

Quando se vive em uma aldeia de ideias e sonhos, há que se estar disposto a ter pesadelos. E está aí a revolução. Os cubanos compram essa briga, como um Ogum destemido que entra na roda da capoeira e faz a chamada para Odé, desafiando toda a sua fartura, pois para os cubanos, mesmo com todo o seu passado, o seu tempo é agora! Apesar do projeto igualitário da revolução cubana, a discriminação racial ainda existe. Essas reminiscências produzem mecanismos de ajustes e reajustes ambíguos de autoafirmação, que vão na raiz das questões mais profundas, como as raízes de um tronco de Irokô. E quando acabava o meu xirê na ilha, eu a vi. Sentada em uma cadeira no meio-fio: Esmeralda. Ela estava ali entronada. Uma rainha, uma entidade. A pele negra parecia uma tela derivada de África, da gênese central de todas as rebeliões das senzalas. Quando meu avião subiu, pensei no filósofo austríaco naturalizado britânico, Ludwig Wittgenstein: “…eu disse um dia e talvez com razão: da antiga cultura restará apenas um monte de escombros, um monte de cinzas, mas haverá espíritos que flutuarão sobre essas cinzas”. Estar em Cuba é um tipo de “feitura”, de alimentar o Ori, de estar num mesmo barco.

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