me esperando na janela

Em Bragança Paulista, Otto Felix deu contornos modernistas à casa de fazenda em volumetria de linhas retas rasgadas para a vegetação orgânica e fluída da paisagem

Texto_Ana Paula de Assis
Fotografias_Denilson Machado (MCA Estúdio)

Natural de São José do Rio Preto, o arquiteto Otto Felix trilhou trajetória peculiar até colocar o bloco na rua, em 2005, com estúdio próprio baseado em Campinas e, atualmente, também com filial na capital paulistana. De lá ele injeta sua verve artística em configurações variadas como restaurantes, corporativos, residenciais e mostras (o seu espaço das Sibipirunas, exibido na Casacor São Paulo 2019, foi sucesso retumbante) apresentados aqui no Brasil e também em lugares díspares como China e Peru. A história é digna de folhetim de novela das 8. Precocemente, aos 13 anos, o criativo era o DJ que liberava o som e colocava a turma para dançar na região; quando alcançou a maioridade, trocou as pick-ups pela formação em piloto de helicóptero, em Los Angeles – sim, ele passou uma temporada na Califórnia. Segundo o profissional, este “olhar de cima” lhe deu noções importantes sobre a espacialidade na hora da projeção. Pensa que ele parou por aí? Otto ainda apurou a bagagem com pivôs pelos universos das artes plásticas, fotografia, cenografia e produção musical e de eventos. Esta multidisciplinaridade o coloca em posição privilegiada entre seus pares e dá um background consistente à fundamentação da arquitetura contemporânea que brota de seus compassos: ela vai da escala de uma cidade a um clipe de papel. A fazenda EP, localizada em Bragança Paulista, interior de SP, é exemplo deste raciocínio. A encomenda teve como ponto de partida uma casa para receber a família nos momentos de relaxamento, em feriados e finais de semana. O pulo do gato da residência campestre, de 894 m², está no uso das formas geométricas de traços bem delineados. “Os espaços são interligados entre si e sempre voltados para a natureza exuberante do redor”, revela. Otto optou por uma volumetria limpa ao organizar a ambientação em dois grandes blocos. A caixa que compõe o térreo contempla living gourmet, deck, piscina, lavabo, cozinha e área de serviços. Esta estrutura concretada marcante dá sustentação ao andar superior privê, todo em estrutura metálica, onde estão as suítes, a sala íntima e um imponente mirante para a contemplação do lago e de outros horizontes. “Um dos grandes desafios foi a estrutura metálica que permitiu o balanço de 7,5 metros sobre a garagem. É como se o volume do pavimento superior estivesse flutuando sobre a caixa rígida de concreto que compõem o térreo”, diz. Esta sensação de leveza também é reforçada pelas portas-camarão ripadas, uma espécie de invólucro para todo esse conjunto. Entre os tons neutros e os revestimentos naturais presentes na composição, a madeira cumaru é protagonista e envelopa piso, paredes e forro. Ela trava diálogo interessante com o mobiliário assinado por expoentes do desenho brasileiro, caso de Zanine Caldas, Jorge Zalszupin, Sergio Rodrigues, Arthur Casas e Jader Almeida. Para o grand finale, a escada espiral, com degraus de granito e guarda-corpo de vidro, tem contornos escultóricos super exuberantes e dá as boas vindas aos convidados que adentram à morada com direito à passe livre do hall à ala social. Otto mais uma vez conseguiu orquestrar com maestria esta bela sinfonia arquitetônica.

@ottofelix