Editorial

LUGAR DE FALA

Empatia e Apropriação Cultural são logradouros muito distantes entre si. Globalização e Apagamento, idem. Mas em 2020, ano da orquestração do inverossímil e do flerte com o Apocalipse, nenhum oposto se confundiu tanto quanto Consciência e Demagogia. A boa notícia é que, tal e qual as fake news, todo esse oportunismo, marketing dissimulado e discurso pseudo-inclusivo pra inglês ver e ouvir, são subterfúgios cada vez mais perecíveis e rastreáveis. A legitimidade da transformação precisa se dar mesmo é de dentro para fora, em ações tangíveis. Característica indissociável de quem somos e daquilo que fazemos (e de com quem fazemos), o antirracismo é tema recorrente em nossas publicações muito antes dos gerenciamentos de crise nas redações de alguns impressos na era do crepúsculo editorial (oriundo da última grande revolução industrial, a digitalização). Você sabia, por exemplo, que o projeto gráfico de POP-SE, nossa pièce-de-résistance, criado três anos atrás e premiado internacionalmente, foi composto, produzido e arranjado por um Diretor de Arte negro (José Renato Maia, o mais talentoso que conhecemos)? Que a nossa Editora-Chefe, Ana Paula de Assis, que nos acompanha há várias encarnações editoriais, também é negra, assim como a Produtora Executiva, Adriana Oliveira? Entre idas e vindas, formamos praticamente o mesmo time há muitos e muitos anos, liderando títulos como Casa Vogue, mag!, L’Officiel, Kaza, Wish, Joyce Pascowitch e Giz, além de outras tantas materializações, entre sites, customizadas, livros, campanhas, mostras e até espetáculos musicais.  

Junto com essa galera toda, como entusiastas das artes gráficas e adeptos do jornalismo em sua forma original – decalcada na boa e velha celulose – desde que resolvemos transformar nossos sonhos em papel, criando imagens autorais para ilustrar narrativas urgentes sob o prisma da arquitetura, do design e das artes, temos trabalhado com a diversidade edição após edição, bancando essas ideias custe o que custar – no pregão das consequências, elas saem bem mais caro do que as suadíssimas cifras investidas para materializar o almanaque que você tem em mãos. Muitas vezes somos perseguidos, julgados e sentenciados, eventualmente até cancelados. Nesses brasis cada vez mais polarizados, há uma cultura de artilharia que sempre mira quem está realizando alguma coisa fora do status quo. E outra que alveja quem escreve em primeira pessoa, sem se esconder. Afinal, se este trabalho, enquanto manifesto-artsy, também não for um ato político, não teria razão nenhuma de existir, né? 

Por que será então que mesmo com todas essas prerrogativas temos tanta dificuldade de encontrar, por exemplo, obras arquitetônicas assinadas por profissionais negros? Porque a arquitetura padece dos mesmíssimos obstáculos estruturais excludentes de qualquer profissão dita elitizada. A legendária escritora norte-americana Toni Morrison (1931-2019) explicou: “Raça e racismo são uma fabricação, uma construção social que oferece benefícios – geram dinheiro, trazem bem-estar, justificam erros e desvios comportamentais. Ou seja, o racismo possui funções. Ele só vai desaparecer quando deixar de gerar lucro e quando não tiver mais nenhuma utilidade”. Ao que seguiu: “Se você só consegue se sentir superior quando o outro está de joelhos, então você tem um sério problema. E eu sinto que as pessoas brancas têm um problema muito, muito sério – e que elas deveriam começar a pensar no que podem fazer a respeito”. Histórica e sistematicamente, estabelecemos, reproduzimos e perpetuamos códigos, esquemas e instituições enviesadas a fim de tirar para nós e nossos pares fenotípicos vantagem máxima dos recursos e meios disponíveis – desequilibrando, assim, o convívio em sociedade. Reconhecer os privilégios cínicos da branquitude é o primeiro passo para começar a extirpar, de fato, o racismo estrutural.

Logo, não ter lugar de fala não significa se acomodar na imensa zona de conforto que é não se posicionar. A equidade deveria ser tão fundamental quanto o oxigênio. Nas próximas páginas, entre conteúdos que vão da Arquitetura da Cura às Transformações da Casa pós-pandemia, há grande destaque para as questões antirracistas. Para articular as pautas, acionamos jornalistas de envergadura, escritores, sociólogos, antropólogos, artistas, modelos e ilustradores negros. Sob a batuta da nossa Ana Paula (a Editora-Chefe que ocupa o topo do expediente desse veículo desde sempre – e não só agora), subimos ainda mais o volume no espaço que sempre foi múltiplo. “Nós morremos. Esse pode ser o significado da vida. Mas nós criamos a linguagem. Essa pode ser a medida de nossas vidas”, disse a mesma Toni Morrison em seu discurso de aceitação do Nobel, em 1993. Caso você não saiba, ela foi a primeira mulher preta da história a receber o prêmio. Não, não temos lugar de fala. Mas ouvimos – e reverberamos – Martin Luther King: “Nossas vidas começam a terminar no dia em que ficamos em silêncio sobre as coisas que importam”.

Allex Colontonio + André Rodrigues
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Fotografia_Marco Antonio | Manipulação Digital_André Luiz

Conceito, direção e criação_@Decornautas/Ana Paula de assis
Fotografia_Victor Affaro
Moda_Bruno Oliveira
Beleza_Walter Lobato e Renan Tavarez
Tratamento de imagem_RGimagem
Adestrador_Cleber Santos (Comport Pet)
Samoiedas_Soha e Zion Zabaglione Tapioca Sputnik
Assistente de fotografia_Bruno Conrado
Erika veste_Mantô Bruno Oliveira