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chão de fábrica

Uma pequena interpretação, em prosa e imagem, de como a revolução industrial da movelaria nacional ainda não eclipsou o rigor artesanal em alguns rincões brasilianos. Mesmo paramentada com toda sorte de adventos tecnológicos, lá na fábrica da Artefacto, em Iperó, a mobília tipo exportação ainda cresce e aparece por conta de um x-factor ancestral e insubstituível: a manufatura

Texto_Decornautas
Fotografias_Marco Antonio

Enquanto pontes virtuais quilométricas vão conectando margens cada vez mais longínquas, os intervalos entre marcos da escala de evolução da civilização também vão diminuindo. É só comparar sob uma perspectiva histórica: a Revolução Industrial aconteceu em 1760, marcando a transição entre o sistema feudal e o capitalismo, quando os artesãos saíram de suas oficinas para operar coletivamente sob supervisão de alguém. Nasciam as fábricas e logo viriam as máquinas. Apenas quase um século depois, rolou o segundo tempo, que levou menos da metade do cronograma: 40 primaveras (foi basicamente entre 1860 e 1900, quando o aço, a eletricidade e o petróleo começaram a suplantar o carvão, o vapor e o ferro). De 1969 a 2000, em 31 aninhos, deu-se a transformação Técno-Científica-Informacional que virou tudo do avesso. Hoje, com o quarto ato dançando na boca de cena, seus filhos e sobrinhos provavelmente se viram muito melhor do que você com as traquitanas arquitetadas sob o touch super-popularizado que aterrissou com tudo no varejo (pasme!) menos de uma década atrás – atualmente, já não dá para mensurar quantos minutos um gadget, um sistema, uma economia ou uma pessoa levam para ficar ultrapassados. Às vésperas da Quinta Revolução Industrial (espécie de Apocalipse que, segundo alarma-se por aí de forma sensacionalista, vai banir o homo sapiens dos processos, substituído pela inteligência artificial que deve mandar e desmandar nos robôs), inacreditavelmente, as manufaturas seguem associadas ao que há de mais luxuoso no planeta. Veja uma bolsa Hermès por exemplo, feita com o mesmíssimo capricho da selaria lá no século 19 (décadas após o início de outra Revolução, a Francesa). Na Artefacto, empresa quase cinquentona na proa do mercado nacional que atualmente também é líder em mobília no exigente Sul dos EUA, os saberes e fazeres manuais ainda ditam as regras do jogo e compõem um exoesqueleto com bastante vantagem competitiva. “A valorização do fatto a mano é a principal característica do DNA Artefacto”, conta Paulo Bacchi, CEO da marca. A tecnologia de ponta está lá, em várias etapas do processo, dos croquis em 3D aos sofisticados equipamentos importados de altíssima performance e baixo consumo, como rezam as cartilhas ambientais, passando pelas logísticas de exportação. Mas o que se vê pelos 75 mil metros quadrados da fábrica em Iperó, interior paulista, é a habilidade de seus artistas coreografando os dedos em tramas e outros gestos físicos que remetem à boa e velha carpintaria, talvez a mais inaugural das profissões. 

As peças que compõem este pequeno ensaio feito de um jeitão absolutamente orgânico, numa quinta-feira ensolarada em que pegamos a rodovia à moda antiga, sacolejando pela Estrada do Ipatinga e pensando no quanto o asfalto já ficou pra trás em termos de mobilidade urbana, são protótipos em fase de adaptação, testados de todas as formas, em nome da excelência. Nesta fase, se for o caso, rolam até novas moulages mesmo (técnica de moldagem tridimensional) e se um único pesponto da costura estiver fora do prumo, a coisa é refeita. Tudo foi desenhado pela arquiteta Patricia Anastassiadis, que assina o estilo das novas coleções há três anos, com punho mais autoral. Parte dos projetos (tem a chaise Arp, a mesa Eclipse e o sofá Geta) integra o elenco de móveis da Edition 2020 da marca. As outras foram feitas ou customizadas (à mão, é claro) especialmente para o Hotel Eden Roc, na Riviera Francesa, hospedagem preferida de lendas do cinema e da música, autoridades e jet setters em geral, em que algumas áreas em comum, como o badalado restaurante La Rotonde, ganham agora retrofit nas pranchetas da arquiteta brasileira. “Quando recebi esse convite, a minha cabeça já começou a vivenciar muitas memórias. O Eden Roc é tudo sobre memórias. No meu caso, tenho uma relação emocional com o local, porque tive a oportunidade de passar muitas férias da minha infância perto dali, em Cap-d’Antibes, na casa de um tio”, conta a arquiteta filha de estilista cuja memória afetiva também tem total conexão com aquilo que a gente só faz mesmo com as próprias mãos. “Ter uma empresa como a Artefacto, que carrega a manufatura no próprio nome, e poder desenvolver uma poltrona como a Uchoa, que tem todo o bambu filetado, colocado um a um – ou a poltrona Zelda, que tem o bambu moldado e a trança feita à mão – é algo muito especial”, conclui. Além da mobília do Eden Roc by Artefacto, Patricia segue dialogando com suas criações anteriores, reforçando o compromisso com a atemporalidade das peças e o propósito em desenvolver produtos de design que plasmem relevância estética e funcionalidade. No background de toda poesia, uma estrutura sólida: “Nosso grande diferencial é o modelo de gestão em 3 camadas: Análise/Gerencial/Operacional, o que torna a empresa ágil e revolucionária o tempo todo”, ensina o Gestor Pedro Torres. 

Logo na sequência desta vibe “infiltrados na fábrica/espionagem industrial”, você confere o ensaio da Artefacto Edition 2020, assinado por estes Decornautas que vos escrevem, em parceria com a autora dos produtos em si. Todos com as mãos na massa – em busca de suas próprias reinvenções ou, quem sabe, revoluções.

@artefactooficialbrasil
@pauloartefacto
@pedroartefacto
@patriciaanastassiadis
@anastassiadis

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