A ÁFRICA QUE HABITO

Retrato_Victor Affaro

Assinar uma carta da editora é um dos feitos mais emocionantes da jornada de compilar uma revista do prólogo ao epílogo. Você sente o corpo e a alma tomados por um misto de sensações, dentre as quais a mais avassaladora é a da missão cumprida. Eu, enquanto mulher preta, da Zona Leste de São Paulo, não podia vacilar na tarefa. É com muito prazer que ocupo este lugar de escancarar a discussão para a diversidade preta na arquitetura e nos interiores. A mim, a pergunta que jamais quer calar é: O que você tem feito, efetivamente, para combater o racismo que permeia esse mercado? Esse questionamento, que num primeiro momento parece não ter uma resposta objetiva, habitou as minhas reflexões desde que comecei a trilhar os caminhos do jornalismo, lá em idos de 1998. Não tive uma carreira certinha, planejada e com a meta definida, como meus pares brancos. A oportunidade descolada para um primeiro emprego numa redação fez com que eu desse os primeiros passos no metiê. Meu diferencial foi ter estabelecido uma rede de contatos e amizades, caso de Allex Colontonio, um dos criadores de POP-SE. Ele é apaixonado por jazz, soul e funk – e entusiasta das grandes divas da música negra norte-americana. Nos conectamos imediatamente e não nos largamos mais. Nossa maior diversão era nos encontrarmos para garimpar CDs e discos importados de música preta no subsolo da Galeria do Rock, na época da faculdade. Já tinha quase cinco anos de formação e estava frustrada numa secretaria de pós-graduação, até que esse best friend, na época já editor na revista Casa Vogue, me apadrinhou, acreditou no meu potencial e ofereceu a oportunidade que fez a virada de chave na minha vida. Sem roupas grifadas e nem bolsas da moda, como dita o dress code, teria sido quase impossível estar ali infiltrada, quase sempre causando dissonância naquele espaço cartesiano, árido, elitizado, zero delineado para ser empático ou agregador para com as pessoas do meu fenótipo. Teria sido assim em quase todas as redações por onde passei depois. 

Esta experiência [de discriminação racial] comum aos pretos é resultado direto do nosso processo de escravização. A luta por moradia – ou falta dela – está intrinsecamente relacionada à falta de políticas reparatórias no pós-abolição, o que fez com que não tivéssemos direito à nossa territorialidade. As políticas foram institucionalizadas como no caso da Lei de Terras, de 1850 – promulgada no mesmo ano da Eusébio de Queirós –, que previa o fim do tráfico negreiro e sinalizava a abolição da escravatura. O Estado espertamente se organizou para favorecer fazendeiros e latifundiários de modo a impedir que os negros que seriam libertos reivindicassem propriedades ou se tornassem donos de seus chãos. 

Para mim, foram quase duas décadas de muita caminhada neste terreno arenoso para agora poder soltar esse ilá que estava preso na minha garganta e apresentar esta curadoria que considero uma espécie de aquilombamento, que dá corpo ao mapeamento do traço arquitetônico feito por mãos e mentes pretas. Idealizada pelos Decornautas e executada por mim, a série Arquitetura x Racismo fala sobre nós, o recorte racial, as nossas diferenças regionais e abrangentes. O interesse não é lacrar, para usar um termo da moda, mas sim contribuir com um arquivo aberto, agregador, que possa funcionar como um primeiro tijolo deste assentamento de rota sem volta, a fim de quebrar os paradigmas eurocêntricos vigentes no cenário atual da arquitetura brasileira. Mais do que respostas lineares, a minha entrevista com cada um desses profissionais partiu do lugar da escuta, do acalanto, do desabafo e da coletividade. Sim, estamos todos juntos neste barco. Esse levantamento não tem o rigor da métrica acadêmica, mas objetiva pavimentar um percurso – que promete ser longo – para dar diversidade às narrativas acuradas por nós pretas e pretos. O meu trabalho, do outro lado do balcão, além de criar essa visibilidade na mídia, pautar a criatividade e trazer inquietações, também se estabelece como lugar de cura que está disposto a abrir um diálogo (direto e franco) de modo disruptivo junto à estrutura tradicional que gira sempre de modo a contemplar o establishment classista. Estamos aqui para quebrar posturas errôneas, retrógradas e estereotipadas não mais condizentes com a nossa sociedade. Acreditem, essa movimentação será permanente!  Queremos compreender vários porquês. Por que você não convida um profissional preto para o seu evento ou para as viagens internacionais, se ele vende tanto quanto o profissional branco? Por que você não leva o arquiteto não-branco para desenhar uma coleção para a sua marca? Por que você não paga a margem correta da controversa RT, como faz para o arquiteto branco? Estes apontamentos precisam contaminar e se refletir em todas as instâncias do segmento. Não dá mais para fingir que está tudo bem e considerar normal anunciantes, marcas e imprensa num trabalho contínuo para a manutenção do status quo que beneficia a mesmíssima classe privilegiada de sempre. Não basta solidariedade com retângulo preto ou militância de redes sociais. Precisamos de ações concretas, para ontem de manhã cedo. Temos direito à cidade e a ocupá-la com dignidade, ao urbanismo com Plano Diretor que atenda nossas existências e complexidades. A arquitetura precisa contemplar a pluralidade, valorizar os saberes vernaculares dos povos originais pautados na oralidade e que foram apartados e invisibilizados do saber formal e da academia. O resgate se faz necessário. Se vai ser fácil? Claro que não. Mas tenham certeza que nós, pretos, não aceitaremos mais calados e sem contra-argumentações as migalhas de estarmos às margens de rios fétidos que entrecortam os perímetros urbanos, nas franjas das periferias, sem questionarmos o motivo. Não nos calaremos e seguiremos neste front para ocupar com dignidade o centro das nossas próprias narrativas. Lugar este no qual vamos lutar para permanecer, apesar de tentarem nos desumanizar. Já fizeram questão de dizer que não éramos capazes de resistir. Aqui estamos! Para esta edição de POP-SE, tive passe livre para fazer um chamamento. Trouxe para o meu xirê de ancestralidade pessoas às quais devo menção honrosa pela contribuição muito luxuosa neste número especial: Anna Karla da Silva Pereira, Alexandra Loras, Erika Balbino, Erika Januza, Jaqueline Conceição, Lilian Santos, Marina Faustino, Paula Marinho, Antonio Isupério, Edson Bispo, Jonathan Raymundo, Abiola Akandé Yayi e Patty Durães. Esses artistas, intelectuais, pensadores e militantes aguerridos injetaram verniz extra neste número com suas criações, artigos e pensatas conceituadas na base do afeto para esse corpo editorial do qual me orgulho em conduzir. Por último, mas não menos importante, o meu agradecimento especial aos publishers da POP-SE, Allex Colontonio e André Rodrigues, por se dedicarem tanto e tão legitimamente, há tanto tempo, à luta antirracista e por estarem segurando a minha mão nesta empreitada. Espero que gostem do conteúdo. Boa leitura a todxs!

Ana Paula de Assis
@anapauladeassis_ | @faladaspretas