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a pele que habito

em vez de comemorá-la, passamos a vida tentando escondê-la – por baixo de panos, makes e outras mil intervenções. O que acontece quando você veste apenas a sua própria derme?

texto_Ana Pinho
Fotografias_Brunno Rangel + Marcelo Feitosa

Trata-se de nosso maior órgão, que guarda dentro de si as mais de 37 milhões de células que nos fazem humanos – bem como múltiplas neuroses a seu respeito. Foi para se despir dessas adversidades, literal e figurativamente, que surgiu o Pele Project (@peleproject). Criada por Brunno Rangel e Marcelo Feitosa, respectivamente fotógrafo e diretor criativo, a empreitada já retratou mais de 200 pessoas nuas, em preto e branco, sem manipulação digital. Ativas. Reais. Presentes.

A ideia, que conquistou celebridades como Reynaldo Gianecchini e Sabrina Sato, é simples: captar a essência de cada um como veio à Terra. A estrutura do ensaio favorece o clima intimista, visto que há apenas a dupla e o/a modelo, que fica à vontade para posar como quiser. Já o estilo cromático visa a união do todo: desse jeito, a diferença fica no contraste e não na cor por conta própria.

O que começou sem pretensões há dois anos e meio tomou um vulto inesperado quando a sorridente Ana Carolina Mattos (140 quilos), prima de Brunno, acumulou milhares de curtidas no fim de 2017. O público cresceu (atualmente são quase 60 mil seguidores), assim como o rol de voluntários, que passou a buscar a dupla ativamente para participar dos cliques. O projeto já rendeu um livro de 300 páginas, lançado em dezembro passado. Tamanha repercussão tem motivo. “Todo mundo é pele, independente de formato e textura”, crava Brunno, carioca que começou a fotografar há quinze anos, ainda na adolescência. Para Marcelo, paulista veterano na profissão, há também um elemento de aceitação de si e do outro. “A pele perfeita é aquela que se entende”, fala. “Cada cicatriz e cada marca trazem um capítulo da nossa existência, e nos tornamos fortes ou fracos dependendo de como as encaramos.”

Algumas das imagens mais marcantes são justamente aquelas que demonstram com clareza as trajetórias. Há o olhar resiliente de Amanda, jovem que teve 70% de seu corpo queimado em uma tragédia familiar; os desenhos únicos na superfície de Vitor; as madeixas poderosas e livres de Caroline; as torções corpóreas do bailarino João.

Conhecer tantas narrativas e singularidades de perto teve um efeito pessoal para os criadores, que carregam consigo um pouco de quem se abriu para as lentes. “A pele que habito hoje traz as histórias de todos os seres extraordinários que conheci”, explica Marcelo. “É muito melhor e mais viva do que antes.”

A sociedade ainda tem um longo caminho pela frente até se despir de seus muitos preconceitos sobre o corpo humano, algo em franca evidência na censura (às vezes feita com emojis divertidos, colocados estrategicamente sobre mamilos e genitálias) necessária para manter as fotos online. No fim, essa imposição só torna a coragem dos retratados ainda mais digna de celebração. Afinal, como a diva RuPaul não cansa de dizer, todos nós nascemos nus. O resto é drag.

 

“Cada cicatriz e cada marca trazem um capítulo da nossa existência, e nos tornamos fortes ou fracos dependendo de como as encaramos”

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