O essencial é invisível aos olhos

Num canto remoto da natureza, um norueguês revive seus tempos de criança e uma aspiração antiga da família num espaço em perfeita consonância com seus arredores

Texto_Pedro Buzzatto
Fotografias_James Silverman

Em uma planície rochosa no sudoeste da Noruega, num fiorde profundo, uma cabana se torna parte do ambiente sem esforço. É um exemplo de arquitetura orgânica que valoriza a interação do ser humano com seu entorno. O isolamento – a ausência de estradas ou outras habitações – contribui para a atmosfera, mas suscita uma questão: como aquilo chegou ali?

Produzida e trabalhada à mão pelo carpinteiro local Trygve Øvstebø, com a ajuda de poucos assistentes, ela teve seus materiais pré-fabricados e transportados por snowmobile e helicóptero, cujo piloto fez o meio de campo com os arquitetos por trás do empreendimento, do prestigiado escritório Snøhetta, presente em Oslo e Nova York.

Assim concretizou-se o desejo de infância de Osvald Bjelland, presidente e fundador da The Performance Theatre Foundation e do think tank Xyntéo. “Este não é apenas o meu sonho, mas também do meu pai e do meu avô”, diz. Quando pequeno, eles andavam pelo terreno, pastoreando as ovelhas durante o verão e cuidando delas no inverno. As caminhadas duravam mais de três horas e, no exato ponto onde agora está o imóvel, seu pai certa vez lhe disse: “Deveríamos ter um local aqui para descansar um pouco”.

Osvald foi o primeiro do clã a trabalhar na cidade e obter capital suficiente para arcar com a aspiração geracional de construir um lugar como esse. Sem perder de vista suas origens, o briefing trazia planos modestos: uma área de 35 metros quadrados, integrada à deslumbrante paisagem circundante, de modo a parecer que sempre esteve lá. Sem energia elétrica ou água corrente, sua única amenity é um fogão à gás.

O frio rigoroso da região exigia um suporte resistente. Para tanto, a forma curva foi cuidadosamente pensada para a adaptação ao clima. Um de seus lados é muito íngreme, enquanto o outro atua como uma barreira de vento, com uma parede de pedra natural soerguida. Os vidros, voltados para o sul, proporcionam ganho solar, aquecem o prédio e derretem o gelo. Na mesma direção, uma porta segmentada permite que se entre pela parte de cima caso haja uma camada profunda de neve no chão – quiçá de oito metros de profundidade, como pode acontecer.

A madeira local confere um ar de conforto, ao passo que o aço dá estabilidade: é uma viga com conexões diretas na base rochosa que sustenta o telhado e mantém tudo no lugar. A estrutura aguenta também terra e grama no teto, o que permite que animais pastem sobre ele – poderia ser mais fabuloso?

Além de enfrentar o isolamento e as condições climáticas extremas – aos quais se diz acostumado –, o construtor se dedicou ainda ao artesanato. Cada peça foi talhada com um machado tradicional, tal qual a escada para o beliche, esculpida de um único tronco (alguns dos revestimentos foram embebidos no próprio fiorde para alcançar a curvatura desejada).

A área de estar se organiza em torno da lareira, que irradia calor em todas as direções e propicia uma visão do panorama através das chamas. Projetada para acomodar até 21 pessoas, a cabana já recebeu toda a família com conforto. “É como estar em um barco a vela”, fala o morador. O local é usado para sediar encontros, relaxar, cozinhar, pescar e cuidar dos bichos.

Trata-se, no fim, de algo muito maior que um refúgio para amantes de montanhas. Com seu caráter singelo e respeitoso, reflete uma relação com a natureza e os antepassados. “Espero que tenha sido feito de um jeito que eles gostariam”, finaliza Bjelland.