Casa Silo

Inspirada nas formas/funções das árvores em seu entorno, a Casa Paarman, em Constantia, Cape Town, África do Sul, traduz a assinatura do escritório Malan Vorster num refúgio contemporâneo e singular, erguido em meio ao plural das matas

Texto_André Rodrigues
Fotografias_Adam Letch

Quem aprecia vinhos, sabe: o que determina as características da fruta que vai virar drink para um brinde, além da genética de cada semente, é o dito “terroir” – termo que abarca a totalidade do ambiente natural em que o fermentado é produzido, incluindo aí fatores como o solo, a topografia e o próprio clima da região. Se o terreno apresentar uma situação angular ideal, por exemplo, a absorção da luz solar por meio das folhas nas parreiras é otimizada, o que turbina a fotossíntese e gera frutos mais vigorosos, suculentos e saudáveis – por isso que a gente vê por aí tantos vinhedos diagonais em relação à linha do horizonte (já achou que tinha virado umas a mais, né?). Há muita ciência aplicada rolando solta nos bastidores do storytelling etílico promovido pela indústria da embriaguez, que não se acanha nem ao citar a Santa Ceia avec Jesus Cristo para calar o povo com um cálice. Pão, circo e vinho. Nesta arena, em que o meio ambiente determina as regras e dá as cartas, o escritório de arquitetura Malan Vorster sai triunfante: localizada em Constantia, a 15 km de Cape Town, numa região vinícola que está entre as mais prestigiadas do planeta (exatamente por conta de seu terroir excepcional), a Casa Paarman é uma reconfiguração do imaginário lúdico que nutrimos acerca das casas nas árvores. Tal e qual uma remixagem que fervilha no mesmo caldeirão ensinamentos de Kengo Kuma (minimalismo japonês), Louis Kahn (pureza das formas) e Carlo Scarpa (manufatura e geometrias), o projeto encabeçado pelos arquitetos Pieter Malan + Jan-Heyn Vorster + Peter Urry foi concebido a fim de complementar a casa-mãe, que já existia. “O cliente pediu um anexo que fosse como uma cabana, com um quarto só, num lugar bastante reservado da propriedade, tipo uma casa na árvore”, explicam. O milagre da multiplicação se dá por meio de uma construção verticalizada e instalada numa pequena clareira da densa floresta local, com living no primeiro piso, quarto no segundo e um deck-solário no terceiro – o térreo é ocupado por uma pequena estufa para espécies vegetais variadas. No pavimento onde está o estar, as baias semi-circulares acomodam pátio, sala de jantar e escadas; já no segundo piso fica o banheiro; enquanto o deck superior abriga um living outdoor. A pureza das geometrias determina a articulação interespacial, com estruturas elaboradas em aço corten e ripas de madeira trabalhadas numa marcenaria altamente complexa e executada à perfeição. As colunas/vigas foram elaboradas a partir do aço corten processado a laser, com cada montante apresentando quatro caules que promovem transparência e elegância – o que confere permeabilidade visual e física às janelas e demais estruturas ali presentes. Essas “árvores de aço” sustentam os pavimentos, a fachada e o envelopamento da casa, que foi feito em cedro vermelho. Os elos entre o metal e a madeira são em latão trabalhado artesanalmente e todos os materiais foram preservados em seu estado bruto natural, sem acabamentos industrializados, já que a ideia é que, assim como os melhores vinhos, essa casa melhore a cada safra. Cheers!