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Azul é a cor mais quente

Índigo, cobalto, royal, piscina, you name it. Conheça os tons e a história de Chefchaouen, a “cidade azul” marroquina que é ainda mais bonita do que parece no seu feed – só que sem filtro

Texto_Mari Campos
Fotografias_Denilson Machado (MCA/ESTÚDIO)

Azul. Talvez um hiper denim seja mais fiel. A pintura tinha camadas tão espessas que parecia cobrir os degraus com uma cobertura cremosa. Uma cor que se espalha por portas, batentes, janelas e até maçanetas. Meus olhos se perderam naquele mar de tinta até eu perceber, sob o sol a pino, as sombras dos cachepôs de flores (também azuis, é claro!). Uma voz aos pés da escadaria, em francês, me trouxe de volta. “Oi! De onde você é?”, perguntou uma mulher. Diante da resposta, um certo espanto e uma gargalhada: “Brasil?! Mas sua pele é tão branquinha!”. Sorrindo com os olhos, a marroquina abanou as mãos: “Moro aqui ao lado. Vem tomar uma xícara de chá de menta comigo, vem”.

Nidal foi uma das pessoas que, do nada, abriram a porta de sua casa oferecendo a bebida em troca de bate-papo em Chefchaouen, a “Cidade Azul” que fica ao norte do Marrocos, nas montanhas do Rife. A febre de imagens publicadas no Instagram vem fazendo com que ela vá devagarzinho perdendo seu status de “paraíso perdido”, embora ainda guarde uma atmosfera diferente. São cerca de quatro horas de carro de Fez e seis de Casablanca, e foi seguramente essa certa dificuldade de acesso que a manteve longe dos turistas por tanto tempo. A viagem de carro até lá é quase tão bela quanto seu ton sur ton – e, quando vemos sua atmosfera quase etérea ainda da estrada, é difícil acreditar que não seja um cenário à la Disney.

É fácil explorar sua medina, como é chamada a parte antiga e amuralhada das cidades árabes e do Magreb, até porque um dos grandes baratos é “se perder” entre as ruelas ladeadas (e em muitos casos pavimentadas – adivinhe de que cor). Guiada pelo perfume das especiarias e dos tagines, muitas vezes tive minha atenção atraída por outras cores: vendedores de toda sorte, artesãos, chaleiras reluzentes, cerâmica multicolorida. Chefchaouen foi fundada por bérberes no século 15 e suas fortalezas eram defesas contra invasores portugueses. O resultado é um emaranhado de ruelas (repletas de gatos) que lembra um labirinto pequeno. Passear e barganhar por ali é infinitamente mais simples do que nas grandes urbes marroquinas, e os vendedores são mais gentis. Apesar da fama crescente, há muitos cantos tranquilos: como a maioria das ruas é estreita demais para carros, vira território de pedestres.

Há duas explicações para a fixação cromática da “pérola azul”, o significado do nome. Uns me contaram que ela teria sido revestida por refugiados judeus vindos da Europa nos anos 1930 e 1940 para simbolizar o céu ou os poderes de Deus. Outros insistiram que a tradição era bem mais antiga e teria como função inicial repelir os mosquitos. O fato é que, até hoje, a pintura é orgulhosamente retocada todos os anos. Dormir ali é recomendável, tanto pela distância quanto para ver a mudança da cena à noite – boa parte dos riads tem agradáveis terraços para contemplar a cidade e o conjunto montanhoso que a rodeia.

O calor constante foi meu pretexto para muitos sucos de laranja, do tipo naturalmente docinho que só o Marrocos sabe fazer. A bebida (que em geral custa €0,50 ou menos) me acompanhou nas andanças e nos passeios – até o rio, onde lavam-se roupas e tapetes, e as Cascades d’Akchour, um conjunto de cascatas com uma piscininha turquesa a 45 minutos de distância. Com prazer, troquei a frescor pelas altas temperaturas do chá sempre que uma família me chamava para conversar. Apesar de ser mais conservadora que a jetsetter Marrakech, Chefchaouen é definitivamente hospitaleira. É possível que isso mude, já que os moradores andam assustados com o turismo acelerado. Por enquanto, sua gente é tão encantadora quanto seu azul-tipo-glacê.

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