Pabllo é pop!

EDITORIAL #2

Na indústria fonográfica (fonte inesgotável de referências/inspirações em nossas vidas) há uma superstição que fala sobre a “síndrome do segundo disco”: aquele momento em que um artista, depois do impulsionamento meteórico ao estrelato em sua estreia, se vê diante de um novo salto, perde o equilíbrio e leva um tombo. O que, afinal, determina a longevidade de um negócio? Muitos diriam que é a saúde financeira: se há recursos, há meios. Para outros tantos, a paixão é o combustível que abastece e faz girar a roda da fortuna. A gente concorda com as duas coisas. Mas, acima de tudo, sabemos que o que determina em quais meandros singram (sem virar) as nossas canoas é a paciência. É o tempo: rio de água corrente, senhor de todas as coisas, flecha certeira capaz de formar ou deformar pensamentos – e assim aquilo que perseguimos ontem passa a não fazer nenhum sentido hoje. Dirá amanhã. “De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa, morna e ingênua, que vai ficando no caminho.” A gente aqui entende que vocês aí se transformam – e transformam tudo e todos à sua volta – conforme os ponteiros deslizam no relógio. Tique-taque e tá tudo novo (de novo). Neste contexto, se manter relevante diante de uma opinião pública cada vez mais empoderada é uma dança de atritos que prevê altos investimentos pessoais, parceiros de fé, noites sem fim, malabarismos diplomáticos e resiliência – muita resiliência – para lidar com os hematomas causados pelas inevitáveis rasteiras de gente má intencionada, nefasta (desconfie de qualquer um). É aquilo: árvore que dá fruta leva mais pedrada. Imprimir nos dias de hoje demanda de cada um de nós envolvidos a justa medida entre o pensamento (racional) e o desejo (irracional). Cérebro + coração. Muito antes de lançar a POP-SE, o que mais ouvimos do mercado (essa entidade impessoal, intangível, indefinida, implacável e cheia de “achismos”) era que “os impressos tinham chegado ao fim”. Aceitamos atravessar essa sentença de morte em forma de cortina de fumaça para descobrir que não havia fogo nenhum do outro lado: aqui estamos nós, vivos, e os impressos não apenas resistiram a mais uma rajada de boatos, como começam a se reerguer dos escombros – refeitos, reconfigurados, reposicionados. Nem todos, claro: o impresso é um organismo vivo e, como toda ideia pulsante, deve se adaptar para sobreviver. Sempre. Onde encontrar a novidade num mundo tão hiperconectado? Nos olhos de quem vê! Ninguém mais deseja a revista-carpaccio-mensal feita sob medida para entubar nas pessoas as tendências mercadológicas mais quentes da estação – essas publicações efêmeras, caça-níqueis, estão com os dias contados. Por isso a Netflix, suprassumo dos serviços de streaming, está lançando, veja você, uma revista impressa. Reflitam: o meio é (e sempre será) a mensagem. Para atingir outros públicos, os estúdios cinematográficos mais rentáveis da atualidade não se valem do Instagram e nem do WhatsApp: mas sim da prensa de Gutenberg. Naquele esquema on demand, óbvio, que é a cara e a alma da contemporaneidade. Inovadora no mercado, POP-SE é um volume impresso com cara, recheio e atitude de artbook; feito para ser colecionável e duradouro, com uma cobertura editorial atualizada, engajada e sócio-politicamente estabelecida, que decola da arquitetura e do design para abarcar os comportamentos humanos em sua totalidade. O tempo passa. Os tempos mudam. E “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia” – cantou alguém que, notoriamente, sobreviveu a muitos álbuns. POP-SE é mais do que uma revista e é mais do que um impresso sofisticado com acabamentos gráficos primorosos e alcance planetário. POP-SE é um manifesto de quem somos, do que fazemos e para onde vamos. Da casca ao recheio, da sutileza semiótica à lambança da torta na cara, nossas verdades e nossos sonhos vertem em litros sobre cada página a seguir. E não somos nós fazendo uma auto-análise e olhando para o próprio umbigo, não. Ícone de lifestyle internacional, a revista inglesa “Monocle” publicou sobre a gente (em sua versão impressa, é claro): “POP-SE foi lançada com sucesso no Brasil no final de 2018, atingindo todas as manchetes ao colocar a atriz Vera Fischer, 67, na capa – nua sobre um fundo pink. Os fundadores Allex Colontonio e André Rodrigues não se intimidaram pelas dificuldades do mercado brasileiro, que passa por uma crise: sua primeira edição trouxe mais de 600 páginas. A capa da segunda edição é ainda mais explosiva: a drag queen que virou popstar Pabllo Vittar posa usando azul e rosa. A escolha das cores é uma resposta eloquente aos comentários da Ministra da Mulher, que disse que meninos vestem azul, meninas vestem rosa. POP-SE oferece um alívio necessário ao conservadorismo do novo governo brasileiro – e vai pincelar em muitas cores as bancas de jornais”. Somos assunto de Londres a Londrina. 

Nesta edição, desafiamos a drag queen mais pop do planeta – em seu segundo álbum e liderando no Spotify – a encenar seu cotê Victor/Victoria num ensaio de precisão cirúrgica e elevada complexidade de execução (volte na capa e dê uma bela conferida na masterpiece meticulosamente desenhada a muitas mãos). Embutido nos matizes de azul e rosa, nosso discurso anti-conservadorismo, anti-homofobia e anti-machismo, em prol daquilo que somos – livres de preconceitos – percorre todas as curvas esculturais de Pabllo. Com que roupa eu vou para o samba que a Damares me convidou? Com a roupa que eu quiser. Rá! Ou vamos “pelados, pintados de verde, num eterno domingo”. E daí? Pabllo Vittar é a explosiva cereja do bolo que confeitamos com corpos livres (gordofobia mata!), fluidez de gêneros, amores líquidos, diversidades, representatividades e o melhor do design, de dentro pra fora. Fotões para inspirar, textões para pensar. Existimos, logo resistimos. “E seja o que vier, venha o que vier” – as edições #3, #4, #5… #100! Ame-se. Desafie-se. Supere-se. Liberte-se. POP-SE!