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Viva Vera Vera Viva

Aos 67 – e muito melhor do que quando começou em 69 – Vera Fischer rompe a última fronteira reservada aos que se aventuram no território dos padrões estéticos: a irrefreável passagem do tempo. Neste ensaio sob nossa direção criativa e generosamente fotografado pelo mestre Miro, a deusa ressurge nua e crua (e, durmam com essa: sem retoques) para atestar que Vera vive – e virou várias

1969: DE GAROTA INTERROMPIDA
A SUPERFÊMEA

Cerca de um mês antes de a civilização humana pisar na Lua (fato que aconteceria em 21 de julho de 1969), o cometa Vera Fischer, aos 17 (ela atingiria a maioridade somente em novembro), eclipsou todos os noticiários nacionais ainda quando a pátria amada, salve-salve, estava sob total regime militar: a então recém-coroada miss Brasil (primeira catarinense a abocanhar o título e, melhor até, a primeira de todas que não derramou uma lágrima sequer na condecoração), havia assinado seu primeiro grande contrato, desde já em âmbito internacional. Sua pagante, a Diários Associados (empresa então responsável pelo concurso), assegurou a exclusividade da neo-bombshell em desfiles e outros compromissos em solo norte-americano. Por meio da imprensa, Vera nasceu tal e qual um impulso estelar e, pouco depois, rasgou a faixa de miss para se apresentar crua e, literalmente, nua, no papel de grande estrela da pornochanchada. “Foi um meio honesto que usei conscientemente para chegar ao sucesso e, principalmente, sobreviver. Afinal, eu era a única miss que não havia casado com marido rico”, disse, francamente, à revista “Cruzeiro”. Não demorou e ela, que nunca sossegou, se coçou: em 1977, se autoproclamou livre do gênero que remixava machismo, preconceitos, estereótipos, política, comportamento e baboseiras em geral com (a parte boa) sexo – se analisarmos friamente, a pornochanchada retrata fidedignamente o mundo em que vivemos muito mais do que qualquer outro estilo cinematográfico. “Num curto período de tempo [entre 1972 e 1973] fiz simplesmente dez filmes pornôs. De todas as fitas, gostei somente de três: “O Anjo Loiro”, “A Super Fêmea” e “As Delícias da Vida”. Não que sejam obras de grande valor artístico, mas são mais criativas e saem do rótulo comum da pornochanchada. Aonde eu pretendo chegar como atriz? Só o tempo e as oportunidades dirão”, disparou V. Ficou estabelecido: a beldade queria mais do que ser bela – queria ser atriz pra se meter de corpo + alma nos bons roteiros, aqueles bem escritos e com mensagens para além da objetificação do corpo feminino. Um ano depois, em 1978, o jogo já havia virado, como entrega a reportagem da “Cruzeiro”: “Essa catarinense que o Brasil inteiro conhece e ama passa a investir na própria imagem e talento. É ela, juntamente com o marido [Perry Salles], quem está financiando o filme “Dôra, Doralina”, baseado no romance de Rachel de Queiroz. O investimento tem, inclusive, todo o apoio da autora e criadora da obra original. Não há mais dúvida. Vera Fischer já é uma grande atriz”. 

1987: COMO UMA DEUSA NA PÁTRIA ARMADA BRASIL

Num dos papéis mais emblemáticos da teledramaturgia nacional – e indiscutivelmente um dos mais marcantes/célebres de sua carreira – Vera interpretou Jocasta no roteiro pop que apresentava uma livre adaptação do texto “Édipo Rei”, clássico de Sófocles, na novela “Mandala”, de Dias Gomes. Antes mesmo de ir ao ar, o folhetim bateu de frente com a Censura Federal e teve sua sinopse vetada – aos arautos da tradição, família e propriedade, a trama desenrolava um novelo de fios condutores “impróprios” (incesto, drogas, socialismo e bissexualidade estavam listados entre as “afrontas” morais contra os bons costumes). Já com o folhetim em exibição na grade, a censura ricocheteou: desta vez, na tentativa de inibir uma cena de beijo entre Jocasta (Vera) e seu filho Édipo (Felipe Camargo), sob a alegação de que seria “muito agressiva para o público”. Após intensas negociações, a Globo obteve o direito de transmitir a sequência com o argumento de que mãe e filho desconheciam tal parentesco. Arrojado e visionário, Dias Gomes elegeu a cantora Rosana para setar a trilha sonora da protagonista. Reconhecida por seus vocais avassaladores-interestelares de alcance sem limites, Rosana seria o coup-de-grâce da emissora na guerra pela audiência – uma espécie de laser desintegrador. “O Amor e o Poder”, vulgo “Como uma Deusa”, über hit do LP “Coração Selvagem” (1987), trouxe à luz uma versão nitidamente aprimorada da música “The Power of Love”, de Jennifer Rush. A interpretação superou em muitas oitavas a original e se tornou, instantaneamente, um novo patamar de sucesso musical a ser atingido/superado – ficou seis meses consecutivos em primeiro lugar em todas as paradas, vendeu mais de 5 milhões de cópias (na era off-line das gravadoras, quando o mundo ainda desconhecia o Spotify) e foi em decorrência dessa música que Jocasta e a própria Rosana receberam o apelido geral da nação de “Deusa”. Para atiçar o imaginário popular num tempo sem internet (as informações eram digeridas mais lenta e saborosamente no boca a boca do que nas superficiais ondas do frenético mundo digital), Édipo, interpretado por Camargo, se tornaria seu marido na vida real – e pai de seu filho, Gabriel (1993) –, num romance intenso do tipo montanha-russa (da série: a vida como ela é). Diz que a única plástica que Vera fez (no nariz, com Ivo Pitanguy [1926-2016]) foi após ter sido atropelada por um táxi depois de uma briga com Felipe. Ele, contudo, não fora o primeiro amor, estranho amor de Vera. Antes, ela já havia encontrado quem declarou publicamente ser sua alma gêmea: Perry Salles (1939-2009), pai de sua filha Rafaela (1979), ator e diretor de cinema – o mesmo cara que contracenou com Vera em dois de três dos seus flicks favoritos (“Anjo Loiro” e “As Delícias da Vida”). Enquanto os tabloides chafurdavam nos percalços pessoais da estrela – que, vamos e convenhamos, são do total desinteresse público –, ela mirava seus disparos em outra direção: desta vez, o alvo de suas rajadas seria a crítica especializada. 

1994: “V” DE VINGANÇA – A VEZ DE VERA

O Brasil levaria o tetra na Copa do Mundo, mas teríamos que entubar o escândalo da parabólica: “Eu não tenho escrúpulos, o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”, deixou claro o então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, sem saber que estava ao vivo durante uma transmissão do “Jornal da Globo” – um live acidental muito antes disso virar rotina nos Stories do Instagram. Corta para outro depoimento de Ricupero, este mais recente, publicado em 2017, numa entrevista concedida à “Folha de S.Paulo”: “Ninguém quer sair na foto com o Brasil”. Pois é: o ser humano anda mais “antenado” do que nunca, seu doutor. E assim permanece a pátria “armada” – uma alcova em desatino que abriga desde a malandragem dos campos (arenas romanas contemporâneas) até a falta de humanidade tão cara aos políticos (os de antes e depois de Cristo, já que a maioria tem preferido remixar religião com administração pública – historicamente um combo hecatômbico). A já consagrada atriz global Vera Fischer, então no ar como a vilã Lídia Thompson Laport, em “Pátria Minha” (trama de Gilberto Braga), novela das oito (que hoje em dia começa por volta das nove ou mais tarde, dependendo do futebol, do horário político ou dos fluxos da audiência em êxodo para serviços de streaming on demand como a Netflix), havia se tornado o principal objeto de interesse da crítica especializada em artes cênicas. À época, entrando nos 40, a ex-miss Brasil 1969, ex-menina dos olhos da pornochanchada e para sempre mantida como uma deusa no imaginário coletivo, havia cimentado sua trajetória sólida e consistentemente – do jeito que anunciou, lá no final dos anos 1970, que faria. Com quase 20 papéis de protagonismo nas telinhas do plim-plim e outros 20 estrelatos cinematográficos mais três grandes peças teatrais na bagagem (“Negócios de Estado”, “Macbeth” e “Desejo”; de 1984, 1992 e 1993, respectivamente), Vera concede uma entrevista ao jornalista Sérgio Dávila (publicada em 14 de agosto de 1994 na revista dominical do jornal “Folha de S.Paulo” sob o título “Vera não existe”), o qual, em determinado momento, aborda a nudez de sua personagem em “Pátria Minha”. “O Gilberto Braga me pediu, explicou a situação, eu disse: por que não? A personagem se vê no espelho e chora ao pensar como vai estar daqui a dez anos, se ainda vai poder contar com o seu corpo”, respondeu. Num reflexo, Vera se olha no espelho e solta em voz alta, agora falando sobre si própria: “Eu sei que vou ter que me aturar, seja daqui a dez ou 20 anos. Vou ser sempre eu”. Dávila saiu de lá convencido: “Vera Fischer já pode ser chamada de atriz. E nem precisa tirar a roupa”. 

2018: VERA VIVA, VIVA VERA!

No Brasil pós-golpe, república das bananas – e, sobretudo, dos bananas e das cascas de bananas – que ocupa a fatia de baixo (ou mais baixa?) do Equador na Era Trumplítica, Vera Fischer está intacta. Ela nos recebe na cobertura de um hotel cinco estrelas no bairro dos Jardins, em São Paulo. A atriz agora tem 66 anos de idade, não se veste de nenhuma personagem – jamais se prestou a esse papel – e se revela, com força, a mulher que é, como é: feita de qualidades, defeitos e singularidades. Quase 30 anos se passaram desde aquele dia em que Vera teve seu momento existencialista em frente ao espelho. Quem viveu, viu: ela é a mesma menina que não derramou uma lágrima no concurso de miss. “Eu acordo todos os dias pensando: eu mostrei a eles. Penso no leão que tenho que matar diariamente. E mato – se preciso for, com os dentes”, estabelece seu lugar na cadeia alimentar. Naturalmente feminista, mademoiselle V estremece as fundações da contemporaneidade: “Aquele cabelo loiro com o batom cor-de-rosa me deixaram parecendo uma prostituta”, argumenta, referindo-se ao ensaio fotográfico clicado por Miro para as páginas de POP-SE, alguns dias antes. “Só vejo uma linda mulher”, retribuo, numa referência ao filme dos anos 1990 que tinha Julia Roberts no papel de uma profissional deluxe do sexo. Vera finca seus olhos-eletrificados em mim, sorri fingindo ser quase-tímida, e retribui: “Posar nua aos 66 anos é uma coisa meio arriscada…”, comenta. “Tive um problema sério de diástase – você sabe o que é isso? A musculatura abdominal se divide, parece que você está grávida. Tive que fazer uma cirurgia para corrigir… Estou me sentindo pendurada por ganchos!”, explica. “Mas ainda bem que foi com o Miro”, revela a intimidade, admiração e total confiança no fotógrafo que é, indubitavelmente, um dos cardeais do métier no Brasil. 

Miro, em si, coprotagoniza esse ensaio lado a lado com Vera. No conceito que desenhamos, não há lugar para retoques e nem intervenções digitais póstumas. Miro é assim, um fotógrafo que habita essa zona-além da imagem mundana que é costumeira e sistematicamente produzida por aí. Ele inebria cada ângulo da cena com seu olhar e suas lentes não só registram o momento, como o redefinem. Quando Miro clica, ele e sua câmera se tornam um foco único, numa espécie de flash-simbiose. Miro não fotografa – ele cria. E explica: “Fotografia é emoção contida no acetato”. Quando Allex Colontonio sinalizou o desejo de um cenário cor-de-rosa, Miro criou toda uma estrutura de lycra tensionada que fazia a luz rebater e lamber Vera dos pés à cabeça, em contraste com as superfícies naked da mobília. Ave, Miro! “Onde é que eu posso tirar a roupa?”, indaga a musa ao cumprimentar a equipe, já estabelecendo que teríamos um dia absolutamente produtivo. Com Vera, a conversa rola e se desenrola em outras camadas de entendimento: estamos lidando, afinal, com uma mulher inteligente, informada, independente – não com uma bailarina numa caixinha de música com um setlist de frases prontas sobre empoderamento ou qualquer que seja o tema da hora. “Nunca tive problemas com a nudez. Minha família sempre teve uma relação muito sadia com o corpo: a gente só tinha um banheiro em casa e todo mundo costumava sair do banho nu. Fui criada dessa forma, para não ter vergonha”, resume. Vera joga em seu tabuleiro, cria, recria e rompe as próprias regras. Jamais aderiu aos rótulos que lhe foram insistentemente adesivados: regurgitou cada um deles de volta na fuça do planeta. “A informação liberta a mulher”, alertou lá em 1971, durante uma das primeiras entrevistas que concedeu. Para ela o tempo não passa – e também não para. Vera é várias. E também é única. Vera, enfim, venceu.  

POP-SE: Bom dia. Tudo bom?

VERA FISCHER: Tudo!

P: Parabéns pelo cerimonial no show “Jazz & Divas”. Saiu no jornal “Extra” uma matéria com você e a Rosana!

VF: Uau! Quero ver! Como faço?

P: Depois a gente te mostra. E aí, curtiu o show?

VF: Achei foda! Tinha algumas ali que nunca tinha ouvido cantar…

P: As mais jovens? 

VF: Sim! Cantavam bastante. A Liniker, as Bahias e a Cozinha Mineira. A Baby, a Rosana… A Rosana é incrível, sempre teve um vozeirão! Virei “deusa” por causa dela, tá? 

P: Foi um espetáculo inesquecível.

VF: Concordo. Gostei bastante! É maravilhoso viver para ver um palco tão importante ser ocupado por mulheres, negras, transexuais. Estamos evoluindo!

16 de dezembro de 2017: 

Olimpo passado a limpo

Um dia depois de posar para as lentes de Miro neste ensaio, Vera Fischer encabeçaria outro grande feito: a atriz fora eleita por Allex Colontonio (publisher de POP-SE e então Diretor de Atividades Culturais do Memorial da América Latina) para ser mestre de cerimônias do show de reinauguração do Auditório Simón Bolívar, uma das obras-primas de Oscar Niemeyer – que havia sido quase totalmente varrido do mapa por um incêndio de enormes proporções em 2013 (que destruiu, entre outras raridades, a tapeçaria gigante de Tomie Ohtake – 100% refeita para essa reestreia). Na programação de “Jazz & Divas” – espetáculo musical composto, produzido e arranjado por Colontonio –, Vera ficou incumbida de apresentar as demais estrelas que fechavam o grupo em homenagem a Elza Soares (que também subiu ao palco): Baby do Brasil, Vânia Bastos, Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira, Sandra de Sá, Paula Lima e, claro, Rosana – aquela que garantiu a Vera, lá em 1987, o apelido de “Deusa”, lembram? Em seu intróito, Vera registrou sob as lentes das câmeras da TV Cultura (emissora que fez a transmissão do evento – desde já disponível no YouTube): “É uma alegria inenarrável pisar nesse palco que tem papel fundamental no calendário cultural brasileiro. O concerto dessa noite tão especial, em homenagem a uma das mulheres mais notáveis de seu tempo, a grande Elza Soares, reúne pela primeira vez um elenco sui generis de vozes femininas de diferentes gerações que prometem emocionar. E elas contracenam com um protagonista de peso: de volta às raízes, a Jazz Sinfônica Brasil retorna ao palco onde estreou há quase 40 anos. Seus cerca de 90 músicos executam com maestria criativos arranjos que, desde o princípio, dão tratamento sinfônico à música popular brasileira e universal”. #segueobaile

P: Como foi reinaugurar um lugar tão importante?

VF: No dia eu fiquei apavorada! Quando entrei, mirei a luz – mas esqueci que havia duas plateias, uma de cada lado do palco. O canhão só acendeu de um dos lados, que foi pra onde olhei. De repente, me virei e tinha um mar de gente na outra direção!

P: Rolou uma coisa “caminhe para a luz”.

VF: Verdade! Sou veterana… Já subo no palco em busca da luz.

P: O Allex quase teve um AVC por conta dessa falha técnica.

VF: Foi demais apresentar o evento! Isso foi um detalhe mínimo, que só faz enriquecer nossas memórias daquela noite. 

P: Isso será lembrado por muitos anos. Quando o auditório reabriu quem estava lá? Vera Fischer, cantoras mulheres, trans, negras, um repertório popular, antirracista, anti-homofobia para homenagear a gigante Elza Soares – que até questionou o maestro da Jazz Sinfônica sobre a ausência de negros e negras em sua orquestra… 

VF: Fiquei muito emocionada. Era disso que a gente precisava. Sem trocadilhos com o Memorial, mas foi uma noite memorável!

P: Me conta o que você tem feito! 

VF: Passei os últimos quatro anos no teatro, emplacando uma peça atrás da outra [“Relações Aparentes”; “Ela é o Cara”; “Doce Pássaro da Juventude”]. Nesse meio tempo, também me joguei nas redes sociais. O Instagram possibilita esse contato direto e sem precedentes com toda a minha base de fãs, gente dos quatro cantos do mundo. De certa forma, acaba funcionando como um termômetro: um novo Ibope.

P: Quem te apresentou a esse admirável mundo hiperconectado?

VF: Tive que trocar de turma. Se você quer que alguma mudança aconteça na sua vida, então precisa olhar para outra direção – ouvir outras opiniões. Estou cercada por jovens talentosos e muito competentes, como o Pedro Loureiro [empresário que também responde pela carreira de Elza Soares] e o Wesley Mariano [que gerencia as redes sociais da atriz]. No trabalho, optei por me associar a gente nova, gente jovem, cuca-fresca.

P: Essa abordagem está rendendo bons frutos?

VF: Super! Estou na nova novela das seis (“Espelho da Vida”). É uma trama de Elizabeth Jhin, dirigida por Pedro Vasconcelos [o mesmo de “A Favorita”]. Além disso, tem a minissérie “Assédio”. 

P: Me conta mais sobre “Assédio”.

VF: É um seriado sobre mulheres que foram molestadas (inspirado no médico Roger Abdelmassih).

P: Você enfrenta muito assédio?

VF: Nossa… Muito! Toda mulher enfrenta assédio – o tempo todo.

P: Como você lida?

VF: Sempre da maneira mais escrachada. Quando você é mulher em qualquer profissão – em qualquer situação – tem que combater o assédio. Quando entrei no cinema, diretor deu em cima de mim, produtor deu em cima de mim. Na televisão, não é diferente: diretor, produtor, ator. No início da carreira, eu lidava com humor. “Tenho herpes, você vai pegar.” Inventava impeditivos nonsense, deixava os homens com nojo mesmo, desconstruía a noção que eles tinham de que eu seria uma deusa. Nunca tive que transar com ninguém pra conseguir nada. Nessa vida só levei pra cama quem eu quis. 

P: Nunca rolou nenhum constrangimento?

VF: Pra mim, nenhum. Pra eles, muito! (risos) Eu lidava tão bem com a coisa que chegava em casa e contava tudo para o Perry, e a gente tirava o maior sarro dos caras. E assim eu resolvia o que poderia se tornar um problema e continuávamos com o trabalho. Consegui passar por tantas coisas engraçadas com gente tão famosa… Um dia vou escrever minhas memórias! 

P: Não quer antecipar uma delas aqui?

VF: Vocês já tiraram minha roupa! Vamos por partes… (risos)

P: Tá bom… Em “Assédio” você tem qual papel?

VF: O meu personagem é pequeno. São vários personagens pequenos, na verdade. 

P: E qual o seu?

VF: A Hebe. 

P: Hebe Camargo… a apresentadora? 

VF: Sim!

P: Então não é uma personagem pequena! [Assessor ao fundo responde]: Todos os personagens são reais, mas não podemos citar os nomes.

VF: Isso mesmo. A Hebe Camargo, por exemplo, não podemos falar que é a Hebe. Então temos que falar que a Hebe é a Haidée, porque acho que a família da Hebe verdadeira não permitiu.

P: É como aquele filme sobre o Bozo que tem o nome de Bingo.

VF: Sim, exatamente. 

P: Como você se sente de novo num papel tão popular?

VF: Logo no primeiro teste de figurinos/cabelos/maquiagem, quando me vi com aquele coque banana que a Hebe usava, a bordo de um vestido de brilhantes, cheia de colares, disse pra mim mesma: “Encarnei a Hebe. Eu sou a Hebe”. Fizemos algumas fotos para produzir o cenário, como era no programa dela (pôsteres), e ficou tão parecido. Não, não ficou parecido: ficou idêntico!

P: Na real você teve alguma proximidade com a Hebe?

VF: Fui entrevistada por ela em três programas. Estou lendo a biografia agora (“Hebe – A Biografia”, Artur Xexéo, 300 páginas, Editora Best Seller). Ali, fala-se da pobreza da família dela, que não tinham nem o que comer – comiam arroz puro, quando muito – e remonta o sonho dela de ter uma vida melhor. A Hebe foi indo, indo, indo… Era cantora, até virar apresentadora aconteceu muita coisa. 

P: Você se identifica com essa garra? 

VF: Totalmente! A Hebe tinha muito medo de acharem que ela era burra, porque ela só cursou até o quarto ano do primário. Teve uma vez em que ela foi convidada para participar de uma bancada com vários intelectuais e sumiu do mapa! Fugiu mesmo. Tiveram que ir atrás e carregá-la a força. No fim das contas, a entrevista rolou e todos amaram, porque a Hebe tinha uma inteligência espontânea, era uma mulher radiante, naturalmente carismática. 

P: Você tem medo de te acharem pouco inteligente?

VF: Meu medo quando decidi ser atriz era outro: vim de uma origem de bases intelectuais e culturais muito fortes. Meus amigos e amigas eram filósofos, historiadores, poetas, antropólogos, sociólogos, professores… De repente, eu estava ganhando a vida tirando a roupa no cinema e fazendo papéis comerciais na televisão…

P: Na década de 1970 você teve sua fase pornochanchada…

VF: Eu precisava pagar as minhas contas e era a única miss que não havia arranjado marido rico. Foi uma maneira honesta e digna que encontrei de viver. Durante um tempo as pessoas mais conservadoras se apegaram a isso, mas hoje em dia o pensamento mudou – ainda bem! – e todo mundo entende que era somente um trabalho como qualquer outro. E não tinha nada de extraordinário: era um pedacinho do peito aqui, outro da bunda ali… Abre aí o Instagram que tem gente mostrando muito mais, por muito menos! (risos)

1º de fevereiro de 2018: A távola redonda na festa de Babette

“Minha mãe via os filmes da pornochanchada e me perguntava: ‘mas, filha… você está com o peito de fora nesta cena? Parece que é você… Não?’”, relembra Vera Fischer, às gargalhadas. Estamos agora numa cena quase surrealista (pelo menos para mim): na sala do apartamento onde vivemos, Allex e eu, uma turma de amigos e amigas (entre eles, Pedro Loureiro, empresário que encabeça esse fenomenal comeback de Vera aos holofotes) se reúne em torno de nossa mesa redonda para comes & bebes mais que especiais em homenagem a Vera, a estrela da noite. “Eu então respondia, com a maior cara de séria: ‘Não, mãe! Claro que não! Eles fazem uma montagem, isso é coisa de cinema. A cabeça só que é minha, o corpo é de uma modelo dublê”. A gente engrossa o coro das gargalhadas, que sobem no volume, fazem os talheres tremer sobre o vidro da mesa redonda e chegam a quase sombrear o scat singing de Ella Fitzgerald que emana das caixas de som. “Gente, é um… é um doce com sal!”, comenta Vera após uma garfada do créme brulée de abóbora com camarão e coco (um dos muitos pratos signature de Allex). “É por causa da cabotiá…”, responde ele. “Você inventou isso…? Só pode ter inventado! Brilhante essa criatura…”, devolve Vera. “O meu primeiro pensamento voluntário da vida foi: eu sou. Depois, pensei: eu quero. Nesse minuto, o que eu quero é comer isso!”. Noite feliz. 

P: Você lida com muita naturalidade e segurança com o seu corpo, sobretudo com a nudez. 

VF: Eu nunca tive problema com o meu corpo. Minha família é alemã e os alemães têm uma relação muito sadia com o próprio corpo. A gente só tinha um banheiro em casa e todos saíam nus do banho. A gente não tinha vergonha do corpo. Eu fui criada dessa forma, para não ter vergonha. Quando me chamaram para ser miss, a vergonha foi outra. Te contei isso: eu era intelectual, estudava com filósofos. De repente, me chamam para desfilar de maiô? Me convidaram duas vezes, aos 16 e aos 17 anos. Da segunda vez [em 1969] eu aceitei porque vislumbrei uma forma de me mudar para o Rio de Janeiro. O meu primeiro salário foi o de miss. No começo, fiquei com vergonha, mas não pela nudez, e sim porque achava que não tinha nada a ver comigo, que não tinha nada a ver com a minha cabeça, com os meus livros, com as minhas referências. Mas, a vontade de sair de casa e ter minha independência – de morar em um outro lugar – era tão mais forte que eu enxerguei que precisava ganhar aquele concurso pra ficar no Rio. E ganhei.

P: E aqui estamos com você nua de novo num ensaio fotográfico!

VF: O Pedro [Loureiro] me disse que eu deveria confiar na direção do Allex [Colontonio]. Então, topei: por que não posar nua? Estou feliz comigo mesma, não tenho vergonha de mostrar nada às pessoas. Adorei a proposta mais naturalista, sem retoques de Photoshop, sem cenários de mentira, para celebrar a passagem do tempo – só não envelhece quem deixa de viver. 

P: Você é feminista?

VF: Sim, eu sou feminista. Sou feminina e feminista. Acredito que nós mulheres precisamos melhorar nossos argumentos, e não só gritar mais alto. E sou também madrinha da Casa Nem, no Rio de Janeiro, que abriga LGBTs que foram rejeitados e rejeitadas por suas famílias. Você acredita que ainda tem família que bota o filho pra fora de casa quando descobre que é ele gay?

P: O Brasil é o país que mais mata LGBTs em todo o mundo…

VF: Isso é um horror! Por isso que precisamos combater a homofobia, o machismo, a misoginia, o racismo, a intolerância. O mundo é feito de muitos e de muitas, e “diversidade” é a palavra-chave para abrir as portas do futuro. 

P: Fiquei sabendo de um programa seu no YouTube, o Vera Fitness.

VF: A gente fez uma brincadeira com o meu nome! Tenho muita experiência com saúde e bem-estar. Em Blumenau (SC), onde nasci e cresci, só se comia coisas da horta, tudo livre de agrotóxicos. Foi assim que aprendi a gostar de legumes, frutas e alimentos frescos. São coisas que sempre tive no cardápio de casa. Isso foi me acostumando e quando eu cheguei no Rio eu senti muita falta de uma alimentação mais balanceada e orgânica. O tempo passou e, um dia, conversando com meu filho [Rafael, graduado em Cinema], pensamos em fazer um programa. O formato é simples: são dicas de dieta com presença de um convidado ilustre. A primeira que gravamos foi a Glória Maria – que é perfeita para o tema! Ela contou tudo: quantas pílulas toma por dia, quais cremes usa no rosto, na boca, nos olhos, em tudo. Ainda fizemos um pouco de yoga nas gravações com ela… O programa é sempre acompanhado por uma médica profissional.

P: Além de YouTuber, o que mais podemos esperar de Vera 67?

VF: Tem um livro que eu escrevi sobre assédio. Quero ver se eu lanço perto da minissérie, porque tem a ver. Já tenho outros dez livros escritos, dos quais consegui publicar quatro. Também faço bijuterias/semijoias e sou pintora – tenho mais de 200 telas feitas. 

P: Nesse mundo cada vez mais conectado, onde os debates acontecem em tempo real e na palma da mão, qual é a sua opinião sobre a legalização das drogas?

VF: Eu acho que deveriam ser feitos estudos e pesquisas para a legalização das drogas para quem quiser e puder fazer uso recreativo. A ilegalidade cria um mercado informal sem regras, uma espécie de faroeste que se nutre da vida dos mais pobres e com menos oportunidades. 

P: Me dá um exemplo de uma droga ilegal que poderia ser legalizada no Brasil para uso recreativo.

VF: A maconha, por exemplo. Por que não legalizar? Acho que essas drogas que podem ser de uso recreativo/terapêutico – e não sou eu que vou especificar quais são e quais não são – deveriam ser estudadas, regulamentadas e liberadas.

P: Acho que você tá certa.

VF: Eu também! (risos)

P: Como foi a sua experiência pessoal com as drogas?

VF: De certa forma, todos nós passamos em algum momento por isso. Todos nós artistas mergulhamos – seja para a arte, seja para a vida pessoal. Eu acho que todos que passam por isso e conseguem superar, saem melhores. A experiência é um aprendizado, mas a saída das drogas é um aprendizado ainda maior. 

P: O que você fez pra se libertar do vício?

VF: Cada um encontra um jeito. No meu caso, foi por meio do meu próprio esforço. Eu saí quando quis sair, não houve nenhuma pressão de ninguém – e, quando houve, não funcionou. Eu tive que eu mesma botar na minha cabeça: vai ser hoje. E foi. 

P: Faz quanto tempo isso?

VF: Alguns anos atrás. 

P: Teve alguma recaída?

VF: Não tive recaídas. Depois que decidi largar as drogas, não teve volta. Essa é uma decisão construída ao longo do tempo, então quando é tomada já está enraizada na gente. Não tive que ser convencida por ninguém. Eu mesma decidi. Essa fase passou na minha vida – agora estou em outra. E bola pra frente. 

P: Você se permite algum excesso?

VF: Não sou de excessos, mas gosto de sair pra jantar, ver gente, circular. Gosto de dançar também, mas foi-se o tempo: não tem mais lugar pra isso no Rio. Gostava bastante do [Club] Hippopotamus…

P: Que ainda existe…

VF: Ainda existe, mas agora é só para associados. Aí você precisa pagar milhares de reais só para ficar sócio! Esse tipo de coisa não me interessa. Só vai gente antiga da alta sociedade. 

P: O que você acha que mudou?

VF: Quando eu era casada com o Perry, a gente frequentava as altas rodas. Eram outras conversas: nós falávamos muito sobre arte, teatro, literatura. Eu aprendi muito naquela época. A gente se reunia para ver Cinema Novo, Nouvelle Vague. Éramos muito mais liberais.

P: Você sente bater uma onda de caretice?

VF: Totalmente. As pessoas retrocederam – a cultura retrocedeu. Precisamos liberar mais! Esse país está tão careta… Eu? Nunca fui careta, em nenhum sentido. Careta é essa gente moralista que me crucificou a vida toda e que faz tudo por debaixo dos panos. Esses dias estive em Brasília porque fui homenageada [Prêmio Sesc do Teatro Candango]. Lá só tinha gente jovem, gente interessante, gente pensante – gente pulsante! Não tinha ninguém careta, não. Caretice é a coisa mais cafona que existe.

P: Você sempre se sentiu assim, uma pessoa livre?

VF: Sim. Quando eu era criança, meu pai tinha em casa uma edição linda da bíblia sagrada, com uma pintura dourada na lateral das páginas. Eu adorava arrancar aquelas folhas para fazer colagens. Também picotava enciclopédias… E sempre ganhava nota dez! Liberdade é poder criar e se expressar. A arte me ensinou a ser livre desde muito cedo. 

P: Quem seria a Vera Fischer da nova geração? 

VF: Ninguém. Havia uma antes, ela se chamava Ana Paula Arósio – era fantástica, linda, uma puta atriz. Mas, não sei exatamente o que aconteceu. Ela se casou, foi para Londres? Sei que não segue mais na carreira de atriz.

P: Diz que ela se afastou por conta do excesso de exposição.

VF: Também teve isso…

P: A fama costuma morder a mão de quem a alimenta. O que você faz para domesticar a sua?

VF: Vivo um dia após o outro – e mato um leão por dia. O dia de ontem não me define e o dia de amanhã não me assusta. Meu segredo é viver o dia de hoje. 

P: Está feliz com a sua imagem?

VF: Sou completamente apaixonada por mim mesma! Sempre fui. Mesmo vivendo num país em que Educação e Cultura são absolutamente negligenciadas, sou também apaixonada pela minha profissão. De repente o teatro não vale mais tanto e vemos a arte indo pro brejo. Mas, eu sei me valorizar – sempre soube, sempre saberei. 

P: Você sente que o público quer a Vera Fischer?

VF: Agora com as redes sociais, sinto isso todos os dias! Mas, mais importante do que isso: eu me quero! Sempre vou me querer, não importa como vou estar. Gosto de mim do jeito que sou. Antes de alguém me querer, me quero eu mesma!

P: Qual o segredo do sucesso

VF: Trabalho duro, claro. Em 2019, completo 50 anos de trajetória profissional… Tô frita, mas tô feita! (gargalhadas)

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