Amazônia em prosa, verso e prato

No coração do estado do Amazonas, aos pés do rio Negro, o Mirante do Gavião desponta em meio à selva nativa fundamentado sob o crivo das boas práticas de sustentabilidade e de preservação do meio ambiente

Às margens do rio Negro – que, ao se encontrar com o Solimões, promove um dos mais belos espetáculos naturais em que as águas de composições diferentes correm lado a lado, mas não se misturam – e em meio a trechos densos de Floresta Amazônica, o Mirante do Gavião Amazon Lodge parece ter brotado do chão nos recônditos de uma das regiões com a maior e uma das mais preservadas biodiversidades do planeta – em frente ao terreno de 2 mil metros quadrados fica o Parque Nacional de Anavilhanas, o segundo maior arquipélago fluvial do mundo. Encomendado pelo empresário paulista Ruy Carlos Tone, proprietário da agência de turismo Mundus Travel, o projeto foi erigido respeitando as boas práticas da sustentabilidade e ficou a cargo do O’Reilly Architecture & Partners – ateliê paulistano chefiado por Patricia O’Reilly –, escolhido pelo currículo invejável que demonstra preocupação de todos os envolvidos com o meio ambiente. Pós-graduada em Ecologia da Paisagem e mestre em Arquitetura e Meio Ambiente pela Universitat Politècnica de Catalunya, títulos conquistados em Barcelona, na Espanha, a arquiteta lançou mão de ferramentas, materiais e tecnologias construtivas locais. Exemplo de arquitetura vernacular, a pousada tem formato de barco invertido com espaços projetados em nível elevado sobre pilotis e moldados em madeira-de-lei certificada com mão de obra executada nas técnicas da comunidade ribeirinha. Assim, a vegetação nativa cresce livremente, evitando a impermeabilização do solo, recurso que também ajuda no conforto térmico, já que a ventilação na parte de baixo reduz temperatura e umidade. Energia solar abastece os sistemas elétrico e de aquecimento de água, e os resíduos orgânicos são direcionados à compostagem. Diante de tantas lições de sustentabilidade, vale ressaltar que a hospedaria conta com apenas sete bangalôs esparramados pelo cenário exuberante arrematado com paisagismo de Clariça Lima – exclusividade que tem seu preço (um tanto quanto salgado), mas compensa pela vista privilegiada dos mirantes colocados em pontos estratégicos.

Exemplo de arquitetura vernacular, a pousada tem formato de barco invertido com espaços projetados em nível elevado sobre pilotis e moldados em madeira-de-lei certificada com mão de obra executada nas técnicas da comunidade ribeirinha

COZINHA MESTIÇA 

Além das amenidades e infinitas opções de lazer, o destino também conta com restaurante beira-mar all inclusive. Com passagem pelas cozinhas da masterchef argentina Paola Carosella, a chef Debora Shornik comanda a bancada do Camu-Camu, homônimo de uma fruta muito versátil típica do Amazonas que tolera tanto períodos de seca quanto as cheias, e é aproveitada pela cozinheira no preparo de bons drinques, caldas e mousses. Os espaços de alimentação têm vista para o vaivém dos barcos que singram pelas curvas do rio Negro – embarcações que podem aportar, e o fazem com frequência, no píer do hotel. Aproveitando verduras fresquinhas colhidas nas hortas orgânicas e ingredientes regionais como peixes (tucunaré, matrinchã ou piranha), frutas (tucumã, banana e abacaxi), legumes (macaxeira), ervas (jambu) e especiarias (pimenta-de-cheiro), a paulistana assina um cardápio dinâmico e sazonal que oferece uma verdadeira experiência gastronômica que engloba técnicas da haute cuisine ao paladar local. “Não são pratos típicos, mas sim receitas autorais que proporcionam aos visitantes provar o gosto de elementos tradicionais na culinária dos barés”, explica. Entre os carros-chefes, destaque para o ceviche de pirarucu no tucupi (sumo amarelado extraído da raiz da mandioca-brava) e o tucunaré no tucupi, prato servido quente. Além de tocar essa nau, a profissional ainda divide seu tempo entre as panelas do Caxiri, com sedes em Novo Airão e São Paulo – na Terra da Garoa, entre um prato executivo e outro, a mestre-cuca serve algumas das delícias amazonenses. Dos sabores, talvez o mais brasileiro.