O lado b das Filipinas: onde os fracos não têm vez

Nas mais lindas ilhas do País do Sudeste Asiático, uma expedição de barco que não promete nada – nem roteiro definido – consegue entregar a forma mais luxuosamente autêntica de vivenciar um lugar. “Não garantimos que você tenha dias relaxantes. Oferecemos as ferramentas para você descobrir por si mesmo a verdadeira cultura dos ilhéus neste remoto arquipélago tropical. Você ainda quer se juntar à expedição?” POP-SE topou o desafio e conta a aventura do oi ao tchau, com as paisagens mais deslumbrantes do planeta e algumas lágrimas de sangue do nosso editor vegeta

Encontrar os outros não estava nos planos. Até então éramos apenas nós, os 22 passageiros, nove tripulantes e Harry, o cão marujo, a bordo do Emerson 7, a explorar baías de águas transparentes, cercadas por dramáticos rochedos, cobertos por mata tropical intocada e coqueirais. Dormíamos em cabanas muito simples nestas prainhas particulares onde chegávamos a nado, com nossas máscaras, muitas vezes sem tirar a cabeça da água sob pena de perder algum coral ou peixinho colorido. Seguíamos para o final da viagem – o terceiro dia de cinco. E naquele agora distante briefing da véspera da partida, ninguém tinha dito que encontraríamos os outros, mas também ninguém disse que não encontraríamos. 

Para ser mais exata, quando me inscrevi pela internet na expedição da Tao Philippines, a única informação que consegui extrair era a de que embarcaria em El Nido e desembarcaria em Coron (poderia ter feito o oposto), passando por ilhas remotas, praias desertas e baías escondidas pelo arquipélago de Palawan, um dos mais afastados lugarejos das já longínquas Filipinas. Logo abaixo, em vermelho, o aviso que resumo aqui: “Esta viagem não é para qualquer um. Pode fazer tempo ruim, pode ter grandes ondas, privacidade limitada, cães latindo, galos cantando, picadas de mosquito, queimaduras de água viva ou de sol. O que oferecemos não é um tour ou um hotel. Não garantimos que você tenha dias relaxantes; na realidade, nós não garantimos nada. Oferecemos as ferramentas para você descobrir por si mesmo a verdadeira cultura dos ilhéus neste remoto arquipélago tropical.” O texto acaba em caixa alta: “VOCÊ AINDA QUER SE JUNTAR À EXPEDIÇÃO?”

Claro que sim! Já estava havia quase um mês vagando por Palawan, tempo suficiente para dar um valor imenso a qualquer proposta que me acenasse com a possibilidade de sair da rota turística. Aqui vale dizer que as Filipinas não são exatamente um exemplo de país seguro. No “Global Peace Index 2018”, aparece na 137ª posição de um ranking que vai da Islândia (1º) à Síria (163º), com o Brasil no 106º lugar. Para completar, não é nada fácil se deslocar entre suas mais de 7 mil ilhas, espalhadas por um vasto território do Sudeste Asiático. Fiz a escolha certeira de ficar longe das favelas da capital Manila e da violenta política antidrogas do governo totalitário do presidente Rodrigo Duterte. Palawan é ideal para fugir da confusão, mas não dos turistas. Muito natural para um lugar que figura sempre nas listas dos mais lindos do mundo. Este ano, é o número 6 no respeitado Top List dos leitores da revista “Travel & Leisure”, mas já ocupou  a pole position em 2016 e 2017.

El Nido, o mais famoso cartão-postal de Palawan, já foi, há mais de dez anos, uma sossegada vilinha de pescadores. Hoje, seu centro é o caos completo, com tuc-tucs levantando poeira, pousadas, lojinhas bacanas ou mequetrefes repletas de Havaianas falsificadas e uma baía poluída cheia de barcos que levam a algumas das praias mais espetaculares que você já viu, em tours prosaicamente batizados de A, B, C e D. Uma estrada conecta o centro à faixa de enseada que vai de Corong Corong a Las Cabañas, onde estão hotéis bem mais simpáticos à beira-mar, além de bares com pufes na areia, jeitão de Ibiza e perfeitos para ver o pôr do sol depois de um dia no mar. Mas não se engane: o melhor de El Nido está nos arredores. Eu queria não ter que voltar só para um pôr do sol com Aperol Spritz.

E la nave va

O Emerson 7 é um barco pesqueiro adaptado para turistas, bem maior que os que levam a passeios de um dia, mas pequeno demais se comparado a barcos em que se dorme a bordo – o que não era o caso desta expedição. Toda em madeira, a nau da Tao Philippines segue o estilo tradicional, o chamado bangka, que, em tagalog, língua nativa mais falada nas Filipinas, significa simplesmente “barco”. Suas longas hastes de madeira laterais são um bom recurso para manter a estabilidade em dias de vento. E também uma ótima passarela para Harry, o cão marujo, desfilar toda a sua habilidade, para orgulho de Jimboy Deniega, líder de expedição que havíamos conhecido na reunião de briefing na noite anterior. 

Ao pisar no barco, já sabíamos que nos próximos dias não teríamos um destino pré-traçado nem horários definidos, e que toda a programação seria feita dia a dia, de acordo com os ventos e as marés. Eram esses os fatores que definiriam em qual das 16 bases espalhadas pelas ilhotas acamparíamos nas noites seguintes. Coisa que poderia parecer estranha para o mix ocidental de britânicos, franceses, holandeses, suecos, um suíço, uma portuguesa, um alemão, uma dinamarquesa, um australiano e, para minha surpresa, um casal de brasileiros que o destino colocou no mesmo barco. No entanto, faz todo o sentido nas Filipinas, o país mais suscetível do mundo a temporais tropicais, tufões e outros ventos nada camaradas. Estávamos em fevereiro, auge da temporada seca – que vai de outubro a abril –, mas um bom caiçara filipino sabe como ninguém o significado de navegar ao sabor do vento.

Assim, deixamos para trás El Nido e, horas depois, havíamos ultrapassado todos os barcos de tours com nomes de letras para desbravar aquele marzão turquesa que agora era só nosso. As primeiras paradas, a caverna de Pasandigan e a incrível prainha de Cadlao, escondida atrás das rochas, até fazem parte do tal tour D, mas, talvez pelo horário, não cruzamos uma alma. A partir daí, corríamos cada vez menos risco de encontrar outros, ou, ao menos, assim pensava, mesmo que ninguém tivesse prometido isso nem o contrário. Prometeram, sim, o tal do “horário ilhéu”, que nada mais é do que a falta dele: para os filipinos, a hora é contada como antes ou depois do café da manhã, do almoço e do jantar. Pontualmente – o que pode ser lido como uma desvalorização do relógio ou como uma supervalorização das refeições. O primeiro de nossos almoços provou que a segunda hipótese é mais provável. Às vezes a bordo, outras nas praias, os banquetes que saíam da cozinha dos chefs Dok e Aivie eram um exagero de vários tipos de peixes fresquíssimos pescados no próprio barco ou comprados nas vilas pelo caminho – além de saladas, vegetais, às vezes camarões, polvo ou alguma outra proteína disponível.

Invariavelmente antes do jantar e depois das primeiras San Miguel ou Red Horse – as boas cervejas locais –, o Emerson 7 ancora em frente do que parecia ser a entrada de uma baía protegida por paredões de rocha. Em caiaques, descarregaram comida, bebidas, roupas de cama e nossas bolsas estanques com alguma roupa seca para passar a noite. A nado, descobrimos que nosso acampamento ficava em uma inacreditável praia secreta escondida atrás dos rochedos. 

Estávamos na ilha de Tapiutan, vizinha a Matinloc, onde fica o paraíso perdido que há muito já deixou de ser segredo para estampar os folhetos do Tour C. Dizem que foi ela a real inspiração do inglês Alex Garland para o livro “A Praia”, que deu origem ao filme estrelado por Leonardo di Caprio (“The Beach”, Danny Boyle, EUA, 2000). A história foi ambientada nas tailandesas ilhas Phi Phi, talvez uma manobra ardilosa do autor para despistar turistas que poderiam transformar em uma Tailândia o país onde viveu por seis meses. Ou, quem sabe, a tal da praia de Garland fosse na realidade a que estávamos agora?

Ao pisar no barco, já sabíamos que nos próximos dias não teríamos um destino pré-traçado, nem horários definidos, e que toda a programação seria feita dia a dia, de acordo com os ventos e as marés

No tempo deste pensamento, Rebot, o “bed master”, já havia arrumado nossas camas e armado os mosquiteiros nas rústicas cabanas com teto de palha e “paredes” de tecidos transparentes por onde se via aquele cenário quase inacreditável. Vem o primeiro jungle juice, o drinque do happy hour à base de rum que o Jam-Jam, o barman, preparava todo fim de tarde. Acendem-se as tochas. Serve-se o jantar na mesa montada sob a areia. E, por fim, aparece uma lua cheia que refletia na água tranquila da praia escondida. Eis que a baía deserta se transforma num cenário rústico-chique – daqueles que os hotéis de luxo tentam reproduzir, mas não conseguem. 

Com as limitações da própria natureza da expedição, obviamente. Havia banheiros, mas a descarga era manual (vulgo jogar um balde d’água, coisa que quem já viajou pelo Sudeste Asiático sabe muito bem como funciona). A água do chuveirão era um pouco salobra, mas nada que incomodasse tanto assim. Dormi maravilhosamente bem na charmosa choupana com a refrescante brisa do mar batendo e o barulhinho do vento na água. Acordei pontualmente antes do café da manhã, quando as frutas já estavam lindamente cortadas e o chef Dok, a postos, fazendo ovos fritos com berinjela (nota do editor ovolactovegetariano: ouvi dizer que é mais saudável e tão gostoso quanto bacon!). 

O segundo dia não foi muito diferente. Ora mergulhávamos num “aquário” cheio de peixes ornamentais, ora nadávamos até outra praia inacreditável, ou simplesmente brincávamos de saltar da tábua instalada como trampolim no barco. Harry seguia com suas fofices, Jimboy entretinha o grupo com histórias ou jogos. 

O acampamento seguinte, também em uma linda praia na ilha principal de Palawan, vinha com uma surpresa: as mulheres da aldeia vizinha nos esperavam para uma massagem em camas montadas na areia. Sim, havia um vilarejo ao lado, mas visitá-lo não fazia parte da experiência do grupo. E isso era uma das poucas coisas que se deixa claro antes do embarque. O Tao Philippines não faz visitas organizadas aos vilarejos, mas, sim, encoraja as pessoas que visitem por conta própria. Foi o que fiz na manhã seguinte. Ruas de areia, patos e cães soltos, criação de porcos, crianças brincando, casas de palha, muitas com antena parabólica e quase todas com bonitos galos – presos a plataformas de madeira elevadas, como se estivessem guardando as casas. Fui saber depois, eram galos de briga, horrendo “esporte” local.

O vento muda

Encontrar os outros podia não estar nos planos, mas o vento a soprar mais agressivamente sempre está, mesmo em dias ensolarados, como era o caso. Por mais que o capitão Rocky, ex-pescador acostumado a intempéries, soubesse manejar o barco da forma mais suave possível, foi preciso mudar os planos. Tivemos que passar o dia e a noite no lugar em que apenas almoçaríamos. Mas a sorte é que o destino era o que eles chamam simplesmente de “The Farm”. A fazenda de permacultura (sistema de princípios agrícola e social de design centrado em simular ou utilizar diretamente os padrões e características observados em ecossistemas naturais) é o QG de operações e o coração do Tao Philippines, que, acima de tudo, é um projeto social para desenvolver vilarejos locais e promover o turismo sustentável. A empresa nasceu em 2006 do sonho de dois amigos – o filipino Eddie Brock e o britânico Jack Foottit, que saíram sem plano navegando por ali e decidiram compartilhar a experiência no boca a boca. Hoje são nove barcos, 16 bases de camping e uma ilha deserta ali perto para quem deseja ficar no mesmo lugar por alguns dias brincando de Robinson Crusoe. Sem contar uma nova experiência, nas montanhas de Bauko Valley, no norte da ilha de Luzon.

A fazenda é a escola para treinamento do staff dos barcos, que aprendem de tudo um pouco até que tenham identificado seu verdadeiro potencial. Do cultivo da lavoura ao abatimento de porcos (nota do editor ovolactovegetariano: tadinhos!), passando pela cozinha, considerada a alma de tudo, e pela padaria. Ao menos um terço do que se come a bordo é produzido por lá e os porquinhos que vi na vila anterior nascem ali para depois engordar nas comunidades (nota do editor ovolactovegetariano: agora chorei!). Até Harry, o cão marujo, foi replicado em meia dúzia de filhotinhos, que serão treinados para acompanhar as expedições.

Ficar preso por ali também teve outros benefícios, como o primeiro banho de água não salobra do caminho (de cachoeira, mas com direito a xampu e sabonete orgânico produzidos ali mesmo). Nem sinal de internet, mas a parte do detox tecnológico era sabida. Já energia elétrica para carregar a máquina fotográfica dentro da cabana foi um avanço inesperado. A civilização, entretanto, vem com seus downsides e isso ficou bem claro quando vemos ao longe outro barco como o nosso se aproximando. 

Os outros vinham da direção contrária, de Coron para El Nido, e não posso dizer que o pernoite deles na fazenda já era algo previsto, uma vez que, como já disse, não há planos. A ideia agora era que o jantar coletivo acontecesse ao redor da linda cozinha-escola, de onde saíram quitutes realmente especiais. E que mesa de sinuca com fichas em vez de bolas, a corda de slackline ali montada, os drinques ao redor da fogueira ou então os malabarismos com fogo que os filipinos fazem com uma destreza ímpar, iriam quebrar o gelo entre os dois grupos de forasteiros que o vento resolveu juntar ali.

Engatei um papo com um casal alemão de Munique, na faixa dos 60 e poucos anos. Eles estavam amando a expedição mas, em algum momento, confidenciaram que o barco deles passava por uma crise (nota do editor ovolactovegetariano: o parágrafo a seguir contém/descreve cenas estarrecedoras): “A americana ficou muito chocada, fez escândalo. Vegetariana, sabe? Foi um pouco demais para ela.” Tudo começou, eles contaram, quando, ao saírem do vilarejo anterior, embarcou junto um leitão. “Era muito bonitinho, até brincamos com ele. Daí, num determinado momento, começamos a ouvir aqueles gritos horríveis”, disse ela. Mataram o porquinho a bordo. Se isso aconteceu no caminho para a fazenda, por que não esperaram para fazer isso aqui?, eu quis saber. Eles não tinham a resposta e, por isso, a revolta da americana vegetariana. Os outros estavam em choque. 

“Nem sinal de internet, mas a parte do detox tecnológico era sabida. Já energia elétrica para carregar a máquina fotográfica dentro da cabana foi um avanço inesperado”

Já nós seguimos a vida, deixando para trás Palawan e cruzando o arquipélago de Linapacam, onde estão alguns dos mais lindos bancos de corais da face da Terra. A ilha seguinte, Busuanga, onde fica Coron, nosso ponto final, é famosa por outro tipo de mergulho: em destroços de navios afundados. São dezenas de naufrágios em uma área relativamente pequena. A maior parte – e os mais interessantes – são os navios de guerra japoneses afundados em um único dia, 24 de setembro de 1944, em uma operação ninja (com o perdão do trocadilho) norte-americana. Muitos estão quase intactos e com vários artefatos em seus interiores. Alguns estão em águas tão rasas que, mesmo de snorkel, como era o nosso caso, dá para ter um gostinho. 

A equipe do Tao seguia forte no propósito de nos mimar à sua maneira muito peculiar. No último acampamento, que era praticamente dentro de uma vila, assistimos ao pôr do sol regado a jungle juice de dentro de uma piscina de pedra abastecida de água de fonte. A despedida noturna do grupo foi uma baladinha hilária no karaokê-inferninho do vilarejo. E, antes disso, assaram um leitão inteiro para nós. Ao ver a imagem do porquinho no espeto, a conversa com os alemães da noite anterior não me saía da cabeça. Chamei Jimboy de lado e perguntei por que haviam matado o porco a bordo, quando poderiam ter esperado algumas horas para chegar na fazenda. “Dá sorte para o barco”, respondeu, na lata. Diante da minha expressão meio pasmada, Jimboy acrescentou: “O sangue protege”. (Nota do editor ovolactovegetariano: lágrimas são gotas de sangue transparentes)

Serviço

As expedições em grupo do Tao Philippines têm duração de cinco dias, indo de El Nido a Coron ou vice-versa. Há saídas entre outubro e abril. Custam US$ 545 com tudo incluso, com exceção das bebidas alcóolicas, compradas antes por preço de mercado e consumidas em conjunto. Há também expedições mais curtas de três dias, além de experiências na ilha deserta do Tao, também com duração de três dias, e roteiros combinados em barco e na ilha. A mais recente experiência da empresa em Palawan é um roteiro semelhante ao das expedições em grupo, mas a bordo de um veleiro. As reservas são feitas apenas pela internet. taophilippines.com