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O rei David

A Bahia lhe deu régua e compasso: astro de grandeza maior no panteão do circuito brasileiro da arquitetura e decoração, David Bastos acumula axé em projetos feitos sob medida para outras estrelas do cancioneiro popular – de Daniela Mercury, passando por Claudia Leitte a Ivete Sangalo, todas tiveram suas casas suingadas pela ginga do  arquiteto. Sua fórmula secreta? Ele entrega sem titubear: “Quanto mais simples e mais atemporal, mais arretada a decoração”

Texto_Cynthia Garcia
Retrato_Salvador Cordaro

Quando Theo Varela baixou na ilha de Mahé, em Seychelles, para supervisionar a floresta virgem onde subirão 20 vilas de altíssimo luxo para um grupo investidor de Dubai que contratou o vultoso projeto no DB Arquitetos, onde trabalha, em São Paulo, o jovem arquiteto de Natal jamais imaginou empreender o tour tropical trajado de alto a baixo, luvas incluídas. “Foi para não ser picado por um mosquito amarelo que paralisa o sistema nervoso por 40 minutos”, explica seu muy consciencioso chefe, o escolado arquiteto baiano David Bastos, que aguardou no ar-condicionado do sheik. Afinal de contas, pimenta no olho do outro é colírio… A descolada baianidade de David conseguiu fincar sua arquitetura solar e seus interiores decorados com pitadas apimentadas de cor na seara de um time de clientes “A” que o inseriu no top 10 dos arquitetos mais badalados do País. “Quem me pôs na lista foi você”, diz, com malemolente falsa modéstia o profissional, sempre de camiseta preta Calvin Klein e Rolex Daytona no pulso, que impôs em quatro décadas seu estilo Brasil export baseado em madeira, espaço, arte, cor e espelhos-d’água, de São Paulo a Salvador, a alhures. Aos marinheiros de primeira viagem, DB pontifica: “Casa você tem que poder ter, poder manter, poder usar. Faltou um dos três, esquece.”   

POP-SE: Em Salvador, conheci seu antigo escritório no galpão, um prédio histórico que foi abaixo. Como vê essa construção civil que destrói nossa cultura arquitetônica com aval do Estado?

David Bastos: O galpão foi uma pena. Essa falta de memória que temos é uma questão de educação. Quando se tem cultura, você renova sem destruir. Fora de São Paulo, só dão valor à coisa nova. Em Salvador, moro em um apartamento pequeno no Corredor da Vitória e o corretor me diz que o prédio é velho: tem 17 anos! O que tive no Rio era de 1935, um dos primeiros de Ipanema, um prédio antigo, gostoso de morar.

P: Escrevi sobre esse apê, o Vinicius [de Moraes] vivia sempre lá porque tinha uma namorada no prédio. Alguma vez sonhou com o poetinha na banheira? (Para quem não sabe, os banhos de VM eram uma odisseia)    

DB: (Risos) Nem sonho, nem pesadelo. O que às vezes acontece, quando se viaja muito, é acordar sem saber onde está. 

P: Aí você vê o fantasma do Vinicius?

DB: (Risos) Olho para o lado e vejo meu próprio fantasma dormindo (risos).

P: Você parece gente boa, mas um ex-estagiário seu, filho de uma amiga, me contou que você surta no escritório. David Bastos é intolerante?

DB: Não sou intolerante – gosto da coisa certa e correta. Se é para ser branco, não é bege. Se é azul, não é verde. Odeio mentira. Melhor ficar vermelho uma vez que amarelo a vida toda.

P: Você nunca foi casado, não tem filhos. Você se assume gay?

DB: Sem problema algum. Só me assumi depois dos 30, quando minha carreira já estava consolidada. Mas não saio pela rua com bandeira – é a minha vida pessoal.

P: Como se descreveria em três palavras?

DB: Verdadeiro, simples e complicado.

P: E as três cidades que dividem seu tempo?

DB: Salvador é magia. No Rio, você pode viver sozinho porque a cidade lhe faz companhia – você fala com o banqueiro e o vendedor de maconha, é tudo igual. São Paulo é serviço e trabalho.

P: Seu escritório em São Paulo tem elevador panorâmico com vista para o verde mais upscale do País, os jardins América e Europa. Mas antes sua sala não era tão apertadinha…   

DB: Verdade, antes minha sala era a grande, ficava no meio do escritório. Me expulsaram porque atrapalho o povo: pergunto, chamo, reclamo, cobro, digo bobagem…

P: Sua mãe de santo previu que seria arquiteto com projeto até no ultramar?

DB: Não, não, Mãe Carmen, filha de Mãe Menininha, não previu porque não converso com a sacerdotisa, converso com a amiga.

P: Seu orixá quem é?

DB: É Omulu, o justiceiro, por isso sou chato, intolerante. E também Nanã, que é Nossa Senhora.   

P: E a baiana do acarajé que te dá água na boca? 

DB: É a Dinha no Rio Vermelho. O da Dinha é muito bem feito. Tem que saber bater, fazer a massa fina, usar azeite bom…

P: Você põe a mão no fogo pela comida baiana de São Paulo?

DB: No Maní, a moqueca é boa; na Carla Pernambuco, o bobó é gostoso. Mas é diferente da Bahia… São Paulo não tem acarajé.

P: Vamos à sua arquitetura: vejo nela uma herança de Zanine com Claudio Bernardes.

DB: A semelhança entre nós é pelo uso da madeira, os espaços livres com pouca alvenaria, muita luz e a brisa entrando nos ambientes internos. E também pelo descompromisso com coisas datadas de modismos. É uma linguagem da arquitetura étnica, milenar, universal.

P: Qual foi o projeto mais desafiador até hoje?

DB: Não houve o projeto, mas o cliente indeciso. “Isso tá bom?” “Não sei.” “Você gosta?” “Não sei.” O projeto não se resolve porque a pessoa não é bem resolvida.

P: O que é mais frustrante na sua profissão?

DB: É o cliente poder fazer, mas não se permitir. O projeto tem que ser para a pessoa, para o uso e para o lugar onde será feito.

P: Mas hoje tem tanta casa de praia que deveria estar na cidade…

DB: É uma vontade de ter uma casa na cidade de quem não tem porque mora em apartamento e, quando constrói, transplanta esse desejo para a praia. É um conflito.

P: Já ouvi de arquiteto que a sustentabilidade está na luz e ventilação naturais, mas o mármore é indiano; as torneiras, italianas; a cozinha, alemã; os tecidos, de Miami; os frufrus, franceses… E bye-bye sustentabilidade.

DB: O que não pode haver é desperdício. É importante captação de água de chuva, energia solar, ter descarga sanitária que usa o mínimo de água. Há vários materiais alternativos com ótimo resultado e durabilidade. Por exemplo, o eucalipto é uma madeira de reflorestamento. Eu me preocupo, mas é preciso parceria do cliente.

P: O que deixa uma decoração arretada?

DB: Quanto mais simples e mais atemporal, mais arretada a decoração.

P: O que é igual a quindim, que, demais, enjoa?

DB: Ambiente ostensivo feito para exibição.

P: Se fosse projetar com orçamento ilimitado, o que faria?

DB: Numa construção, é mais importante a qualidade da mão de obra do que propriamente o material. Se a mão de obra não é primorosa, ela pode detonar o material.

P: Hoje qualquer arquiteto e decorador faz design. Por que não há uma linha DB David Bastos?

DB: Porque sou arquiteto. Designer tem que entender de ergonomia e ter um ótimo fabricante para produzir as peças em escala. Senão é só protótipo ou, com muita sorte, obra de arte.

P: O que é luxo?

DB: Tempo e espaço. Ter tempo para curtir seu espaço é uma das melhores coisas que há. Quando faço apartamentos oversized, já ouvi cliente perguntar “não tem pouco móvel?”. As paredes podem estar cobertas de obras de arte, mas luxo mesmo é ter espaço livre para circular.

P: Qual momento do projeto o deixa mais ansioso?

DB: Quando a obra está terminando. Não gosto de obra, quero ver pronto. Se pudesse, teria uma varinha de condão!

P: Algum desastre em um projeto?

DB: O cliente que me encomendou um projeto em uma área ambiental proibida. Avisei, ele teimou, construiu – o Ministério foi lá e derrubou a casa.

P: Mas ele pagou seus honorários?

DB: Pagou, pagou (risos).

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