O jardim das palavras

A primavera que injeta vida e cores na Alemanha tem bons motivos para se estender em Berlim: o IGA, festival de paisagismo que acontece a cada dez anos, finca seus pés pela primeira vez na capital e conquista com atividades culturais e jardins estonteantes – um deles assinado pelo paisagista brasileiro Alex Hanazaki

Por_Kaique Paes
Edição_André Rodrigues

pop_se_1_jardim_berlim

Vista do Wolkenhain, mirante em formato de nuvem internamente iluminado ao anoitecer

 

O Brasil é um receptáculo de todas as civilizações. Foi o porto seguro de refugiados das guerras

Berlim, a maior cidade da Alemanha (com cerca de 892 km2 – metade do tamanho do município de São Paulo), possui cerca de 70% do seu território cobertos por florestas, parques, praças, lagos e rios. Para atestar essa vocação ambiental, durante a primavera, a capital recebe pinceladas de cores únicas que, aliadas ao clima ameno que segue firme até o final do mês junho, ajudam a aquecer o coração dos seus habitantes. Em 2017, a atmosfera será prorrogada até outubro, graças ao festival IGA – Internationale Gartenausstellung (exposição botânica internacional, em tradução livre), que materializa a maior mostra de paisagismo e arquitetura natural do planeta. O aclamado festival teve início em 1865 e acontece a cada dez anos na Alemanha – mas essa é a primeira edição em que ele toma conta da capital, se alastrando por 104 hectares de terreno. Do centro da urbe até o ponto do festival são cerca de 30 minutos de trem em trajeto que começa às margens do rio Spree e é finalizado no extremo nordeste da cidade. O complexo botânico foi modificado (e melhorado) para sediar as atividades da exposição: em meio a construções de baixa estatura, com características inspiradas no movimento Bauhaus e erguidas, originalmente, como moradias populares, ficam os três parques que um dia foram separados e hoje hipnotizam pela imensidão e diversidade – para o IGA 2017, foram juntados os parques Kienberg, Wuhletal, a colina Kienberg e o Garten Der Welt, um complexo de jardins internacionais dos anos 1990 que conta com 9 espaços originais e que estreou dez espaços, já em caráter de permanência, neste ano. Após adentrar o sítio e embarcar no teleférico (que se eleva 30 metros), a primeira parada é a área de Wolkenhain – uma construção mirante em formato de nuvem, com vista em 360 graus e que permite observar a cidade por completo por meio de seus diversos níveis e telescópios. O ponto alto fica ao final do percurso do teleférico, onde o sol bate mais forte e os imponentes jardins internacionais chamam a atenção já de cima. A proposta do IGA é convocar e reunir os melhores paisagistas do mundo para construir, cada qual à sua maneira, um jardim em homenagem à história do seu país de origem. Entre flores exóticas e espelhos labirínticos, o coração mais quente do evento pulsa sob assinatura do paisagista brasileiro Alex Hanazaki, já eleito um dos melhores do planeta. O arquiteto brasileiro descendente de japoneses imprime sua assinatura sensorial no espaço minimalista, feito sob medida para pulverizar qualquer preconceito que os visitantes possam ter sobre o Brasil. O projeto distingue a natureza em camadas, com direito à ponte de passagem que desemboca em uma cascata arquitetônica composta por lago artificial que molda as árvores fincadas em seu centro. O universo estético proposto por Hanazaki é repleto de combos e ousadias, com texturas que vagueiam da superfície d’água, passando pelos veios das rochas naturais e, por fim, materializando elementos rigorosamente geométricos.

Jardim Dule Yuan, em português “do Prazer Depositado”, tributo à China assinado pelo paisagista Zhu Yufan; Jardim dos Espelhos, projetado pelo artista dinamarquês Jeppe Hein; “Jardim da Água Confluente” (tradução livre do alemão), feito em 1970 em homenagem à relação nipo-germânica; Jardim Oriental, projetado em 2005 pelo arquiteto e paisagista alemão Kamel Louaf; e outro detalhe do Jardim dos Espelhos.


Hanazaki quis falar sobre toda essa diversidade, não se valendo de um discurso óbvio, folclórico e de fácil assimilação, que seria a estética tropical dos coqueiros e bananeiras, mas sim de uma economia potente, de sua grande expressividade arquitetônica e de riquezas naturais que até hoje são exportadas em massa. “O Brasil é um receptáculo de todas as civilizações. Foi o porto seguro de refugiados das guerras, que aqui prosperaram e ajudaram a construir uma identidade plástica única, seja artística, arquitetônica, moveleira ou paisagística”, conta Hanazaki. “Por tudo isso, quis abordar o modernismo concreto inspirado nas linhas puristas de mestres como Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha, ambos vencedores do Pritzker, e na geometria de Roberto Burle Marx, um dos grandes paisagistas do século 20, com uma praça de volumetria rigorosa, onde a vegetação incide sobre ela de forma poética, em recortes precisos”, explica.


Ao entrar no jardim IGA by Hanazaki, os visitantes têm a perspectiva de um extenso espelho d’água. Ali, podem acessar uma ponte e visualizar as pedras escultóricas que emergem de uma profundidade de 15 centímetros com borda infinita, “executada em pedra ferro, típica do Brasil”, reforça, lembrando que nosso País é um dos principais exportadores de minério do mundo. Outra prioridade de Hanazaki foi trabalhar o máximo possível com elementos orgânicos, não importa o quão severas sejam as temperaturas da Alemanha. Ao invés de pavimentar o chão, optou pela terra natural e, sobre ela, debruçou uma camada de pedriscos drenantes. Como seria impossível trabalhar com espécies nativas brasileiras por conta da incompatibilidade climática, Hanazaki interpretou o País por meio de uma vegetação que dialoga com todo o conceito do projeto e sua própria relação miscigenada com terra brasilis, destacando uma variedade rica de gramas, capins e bambus.