Transamérica plural

carol marra quebra as amarras do gênero na arquitetura

Com ambientes que abordam a questão no gender e outros que sugerem desde uma pequena reflexão sobre a transexualidade até uma proposta inteira pensada para um perfil que, infelizmente, ainda precisa impor seu espaço na sociedade, jovens arquitetos trazem para as edições recentes da Casa Cor elementos que deflagram, ainda que algumas vezes com certos exageros e folclores, o quanto o entendimento do outro é condição cada vez mais urgente na hora de projetar o receptáculo da vida de alguém. A convite de POP-SE, a jornalista, atriz e apresentadora Carol Marra estrelou um ensaio nos principais (e mais polêmicos) cenários das edições da mostra no eixo Rio-Sampa.

Aescolha dessa moça com M maiúsculo (tipo Mulher-Maravilha) para este ensaio não foi aleatória. Bela, culta, inteligente, guerreira, bem posicionada e com textão politizado na ponta da língua (e na ponta dos dedos, já que  manda superbem quando escreve), das Minas Gerais para Lisboa, onde vai encarnar a personagem-título de “Odara”, longa dirigido pela portuguesa Ana Cavazzana que tem Ricardo Pereira e Maria Fernanda Cândido nos créditos, ela está apenas no início – e promete ir muito mais longe. Carol Marra é atriz, modelo, jornalista e, providencialmente, uma figura avant-garde, como exigem os novos tempos. Escapou das amarras do preconceito feito o grande Houdini, trabalhou como repórter e produtora de moda, desfilou nas passarelas do Minas Trend Preview e do Fashion Rio. Também fez mágica ao se tornar a primeira trans a estampar um editorial na “L’Officiel” e a capa da “Trip”. Teve parte da bio documentada no programa “Tabu”, exibido pela National Geographic no mundo todo, e ganhou destaque no “The New York Times”. Entre seus trabalhos na televisão, estão séries como “Psi” (HBO), “Segredos Médicos” (Multishow) e “Espinosa” (GNT), além da novela “Boogie Oogie” (TV Globo). Contracenou com Carolina Ferraz no filme “A Glória e a Graça” e atuou em “Berenice Procura”, que tinha Cláudia Abreu, Vera Holtz e Eduardo Moscovis no elenco. Papéis sérios e zero alegóricos. Mas, aos 35 anos, Carol é uma exceção, já que é exatamente essa a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil.   

A redesignação sexual foi autorizada pelo Conselho Federal de Medicina no Brasil em 2002. Apesar de o SUS (Sistema Único de Saúde) realizar o procedimento há somente dez anos, as atuais filas de espera já ultrapassam duas décadas. Enquanto isso, a lei 10.948/01 torna possível o registro de denúncias de homofobia e transfobia, mas o bullying é praticamente o mesmo dos tempos da Roberta Close e os crimes, iguaizinhos aos que a gente lia no jornal “Notícias Populares” (1963-2001), aquele que, diziam, “se espremer, sai sangue”. Para atestar nosso retrocesso, enquanto o País segue colapsado com urgências feito a distribuição de renda, a saúde, a educação e a segurança pública, no pano de fundo tem presidente eleito pregando discurso de ódio para angariar popularidade a torto e à (extrema) direita. Infelizmente, legislar sobre a orientação sexual alheia ainda parece conquistar a empatia das massas.  

O Brasil Sem Homofobia: Programa de Combate à Violência e Discriminação Contra LGBTQ+, de 2004, fez com que a questão deixasse de ser “tema periférico”, mas ainda estamos engatinhando e, aparentemente, sobre um tapete de milho, grão-de-bico e milhares de tachinhas. Exatos dez anos depois da criação do plano, em 2014, o Brasil já liderava o ranking de países que mais matam transgêneros (cerca de mil pessoas contadas só a partir de 2007, segundo a ONG internacional Transgender Europe – três vezes mais que o México, vice-campeão na carnificina). No mesmo ano da divulgação da pesquisa, em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, o menino Alex Medeiros, de oito anos de idade, flagrado pelo pai lavando louça e usando um vestido, foi espancado até a morte. Apenas mais um caso de barbárie diluído num afluente vermelho-sangue que corre sob nossas fuças. Se você digitar no YouTube a busca “trans assassinado”, vai encontrar mais de 2 mil ocorrências que abarcam reportagens em programas de tevê como “Cidade Alerta”, “Brasil Urgente”, “Balanço Geral” e outros jornalísticos que ninam os órfãos do “NP”. 

Os Estados Unidos contam com medidas parecidas com as nossas, como a legitimação, o acesso à operação de redesignação e a alteração para o nome social na documentação, ao passo em que vozes expressivas começam a se manifestar com merecida reverberação. Mas como o processo de “encaretamento” mundial atravessa toda e qualquer fronteira legalmente, sem precisar de coiotes, a coisa vai de mal a pior. Durante o governo Obama, foram fomentadas iniciativas que garantissem a discussão e normalização de pautas da agenda trans, como debate sobre o banheiro sem gênero, a questão de dormitórios compartilhados, etc. No último dia 21 de outubro, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos do Governo Trump declarou buscar encontrar uma forma mais “sucinta” de pensar sobre sexo de forma legal, afirmando que identificações de gênero vão de acordo com a genitália do indivíduo ao nascer e, por isso, um rótulo irrevogável em qualquer circunstância. Essa decisão pode afetar drasticamente os direitos civis e posicionamento de legislações federais de cerca de 1,4 milhão de pessoas T na terra do Tio Sam.

Laverne Cox ficou conhecida como a detenta Sophia Burset na série “Orange Is the New Black”, da Netflix. Em 2014, um ano após a estreia na plataforma de streaming, fez história por ser a primeira transgênero indicada ao Emmy. Por seu ativismo em prol dos direitos da comunidade, figurou na tradicional lista da “Time” entre as 100 pessoas mais influentes do mundo – e foi a primeira trans a estampar a capa da publicação. Entre as realizações como ativista, foi nomeada uma das embaixadoras da ONG Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (Glaad), que tem credibilidade por fomentar a aceitação e a representatividade de LGBTQ+ na mídia. Por aqui e por lá, a modelo brasileira Lea T também foi a primeirona a estrelar a campanha da grife Givenchy, em 2010; posou para “Vogue Paris”, “Vanity Fair” e “Love Magazine”; somou duas entrevistas no talk show da irrefreável, onipresente e onipotente Oprah Winfrey; e se tornou a embaixadora trans global da marca de produtos cosméticos Redken, em 2014. Além disso, integrou a lista da “Forbes” de mulheres que mudaram a moda italiana. 

De volta ao Brasil, bem longe do show business, Maria Luiza contribuiu com as Forças Armadas por 22 anos. Atravessou o período sob o nome José Carlos da Silva até se tornar a primeira cabo transexual a integrar a equipe da Base Aérea de Brasília, como mecânica. Mas logo foi abruptamente afastada e teve o salário cortado pela metade, por ordens do Alto Escalão. Em 2005, enquanto enfrentava um processo judicial para retomar as atividades profissionais, passou pela cirurgia. Apesar de ter sido concedido a ela o direito de voltar para a Aeronáutica, não pode fazê-lo por estar beirando os 50 anos de idade. O diretor Marcelo Díaz rodou, em agosto de 2017, um documentário sobre a luta de Maria Luiza, ainda sem data de estreia. 

Filiada ao PSOL em Minas, a professora Duda Salabert é a primeira candidata travesti a disputar uma vaga no Senado. No programa de governo, visa o avanço no sistema de educação e soluções ambientalistas. Duda também é presidente da Transvest, ONG que oferece cursos gratuitos para travestis e transexuais.

Como elas e muitas outras, cada qual no seu quadrado, Carol também se posiciona, mas hasteia, antes de mais nada, a bandeira da normalidade – o que todo mundo quer, no final das contas –, sem fazer de conta que nada está acontecendo. Numa época em que o tema chegou até à novela das 21h, natural que a arquitetura também abrisse os olhos para a questão – e mais natural ainda que convidássemos uma musa trans para conferir (e ilustrar) in loco como as pranchetas da nova geração lidam com o assunto. Carlos Carvalho, Rodrigo Béze e Caio Carvalho, jovem e bela trinca por trás do Studio Ro+Ca, conquistaram uma vasta clientela comercial, corporativa e residencial com seu estilo modernex. Em 2017, desenvolveram para a Casa Cor Rio uma combinação integrada de quarto, estar e cozinha. O Loft (U), representando a palavra undefined, foi criado para um casal, mas sem a preocupação de especificação de gênero. “A ideia era que a pessoa que entrasse ali se identificasse com o espaço. Queríamos quebrar o paradigma do que é o loft da moça e do que é o loft do rapaz”, explica Carlos. Para destacar ainda mais o desejo de não nichar as identidades, convidaram uma recepcionista trans, a Joana, para dar as boas-vindas aos visitantes no ambiente.

Outro jovem corajoso que mergulhou nessa seara foi Ricardo Borges. Seu “Transtudio” na Casa Cor São Paulo 2018 é um híbrido de sentimentos, histórias e sensações, imaginado como abrigo de uma trans. “Quis transmitir visualmente a transição de gênero da personagem, uma narrativa marcada por muita luta e força”, diz. O banheiro exposto propõe uma mudança de cenário visual com o restante do estúdio. “Ele aparece sem pudores e materializa a aceitação do corpo modificado”, diz. Um letreiro néon com a frase “Be Anything” coroa a narrativa estética do loft, comentadíssimo tanto pelo visual, quanto pela polêmica. 

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Perto dali, os 200 metros quadrados da Casa Neshamah, projetada por Gustavo Neves, exploram a compreensão da vida e da origem sem distinção de gênero, idade e (principalmente) sexo, resultando em uma “criatura-casa” orgânica e rústica, que se desprende do conceito de categorização de gênero. Aliás, é isso o que representa o nome da casa: no “Zohar”, livro importante da literatura cabalista, “Neshamah” significa, literalmente, “respiro, o sopro de espiritualidade elevada”. Para simbolizar ainda mais essa essência, o profissional convidou o fotógrafo Salvador Cordaro (nosso prata da casa) para desenvolver com ele a série “Ruach” – no português, “o sopro de Deus”. A fotografia é cheia de simbolismos que conversam com a atmosfera elementar do local, mas que também colocam em xeque a narrativa sobre a criação do Homem como é conhecida. “Pensamos em fazer a representação do andrógino como se fosse um espírito assexual. Usei um ponto de luz único vindo de cima do personagem, porque não tem melhor jeito de apresentar a origem e a criação do que usando elementos puros”, explica Cordaro. 

Em sua estreia na mostra, Lisandro Piloni direcionou o olhar para uma necessidade pautada na agenda da militância trans ao criar o “WC No Gender”. “O banheiro unissex já vem acontecendo. Em Londres e Nova York essas opções já existem e aqui no Brasil estão começando a engatinhar”, pontua o profissional. O revestimento espelhado e as imagens com projeção em tempo real feitas por seis câmeras posicionadas por todo o hall de entrada foram recursos encontrados para incentivar os visitantes a fazerem as pazes com seus corpos, em sua maneira mais pura e íntima. “Primeiro de tudo, a pessoa precisa se aceitar para ser aceita. A grande proposta do ambiente é fazer com que ela se veja de todos os ângulos e formas para se sentir confortável consigo mesma”, comenta. Ao planejar o cômodo, bebeu da fonte do estilo oitentista Memphis para misturar acabamentos, cores, texturas e formas geométricas de modo inusitado. Assim, destaca o incentivo ao respeito, ao passo que também desenvolve uma estrutura décor exuberante. 

Como a casa imita a vida e a vida imita a arte, passeamos com Carol Marra por todos eles e ainda pedimos para que ela registrasse, de próprio punho, suas impressões. Agora, só faltam as suas.

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Da exclusão ao protagonismo: a experiência de posar em ambientes de design imaginados para a persona trans 

Por Carol Marra

“E, quem diria, a discussão de gênero, depois de passear por diferentes destinos, chegou também à decoração. Na Casa Cor Rio, um lounge idealizado pelo Studio Ro+Ca foi denominado ‘não gênero’, um conceito lindo e sem rótulos, que poderia ser a morada de um casal gay ou até mesmo de um casal hétero (prova de que bom gosto e refinamento não têm nada a ver com orientação sexual). Já na mais recente edição do evento em São Paulo, tivemos um espaço dedicado inteiramente a elas: as transexuais. Sim, temos que discutir esse tema à exaustão, até que ele se torne uma coisa ‘normal’ ou, pelo menos, aceitável. Li certa vez uma frase da cartunista Laerte que dizia: ‘Saímos do armário e para lá não vamos voltar’. Não mesmo! E é interessante perceber que saímos do armário para ocupar um ambiente inteiro na maior mostra de decoração das Américas, e daí ganhar o mundo, onde as possibilidades são infinitas. Nessas exposições, o visitante é levado a uma reflexão muito importante e necessária no País onde mais se mata trans e travestis do mundo. Ali as trans ganharam um ‘abrigo’ e, mesmo que por alguns poucos minutos enquanto durava a visita no ambiente, elas saem do obscuro e da invisibilidade para se tornarem personagens/protagonistas das suas próprias histórias. Como vivem, quais são os seus anseios, sonhos e as dores dessas mulheres (muitas vezes não vistas como tal). E como traduzir tudo isso e levar essa mensagem por meio do décor de uma forma não superficial, sem soar piegas ou óbvia demais? No caso de São Paulo, os tons de rosa e a estampa animal print revelam parte de uma personalidade não compreendida e, na maioria das vezes, ligada à marginalidade. Livres de julgamentos, entramos no mundo delas através de cada detalhe, adorno e peças cuidadosamente ali expostas como se fossem obras de arte – porque decoração também é uma arte e é através das artes que podemos (trans)gredir e levar a população a questionamentos. A arte instiga, inclui e nos leva a mundos diferentes dos nossos, para ampliarmos nossa visão, além da oportunidade de tirar a venda que nos cega e impede de enxergar novas cores, novos formatos e toda a beleza da diversidade da vida. Entre tantos adornos, um porta-retratos no canto da prateleira me chamou a atenção e remeteu a um passado que poderia até estar escondido em alguma gaveta – como fazemos com algo que não temos a coragem de jogar fora. A foto colocada nele me fez lembrar da infância tímida e calada que me fora roubada. Naquela época não se falava em bullying, mas eu não apenas sabia, como também já sentia o significado daquela palavra na minha carne. E doía, doía muito!  

Passei da fase infantil para a adulta como num pulo, e amadureci cedo para me defender dos olhares e comentários maldosos que deixaram marcas na minha alma – marcas essas muito mais fortes do que as que me deixaram na pele. Nunca tive brinquedos. Não pude ter bonecas como as demais meninas da minha idade, e a fase, que era pra ser lúdica, se tornou um pesadelo (do qual tive que acordar para não ser engolida). Amigos dessa infância nunca tive e, consequentemente, não trouxe para a vida adulta. A foto daquele porta-retratos poderia ter um registro nostálgico de toda a turma de amiguinhos do primário, mas não! Tinha apenas uma criança solitária, com olhar distante e um sorriso tímido, que escondia todo o peso e a angústia do preconceito de uma sociedade que aponta, condena e exclui. Aqueles anos não poderiam ser cor-de-rosa, mas agora, sim, podem, até numa mostra de decoração! Hoje o rosa se faz presente para colorir e iluminar o cantinho escuro da alma na esperança de que um dia o mundo possa ser todo pink, e o amor e a igualdade deixem de ser um sonho longínquo. Saio da Casa Cor leve e com o sentimento de que subimos mais um degrau. A passos curtos, as coisas estão melhorando e mudando, e com saltos altos ou altíssimos ainda temos um longo caminho para percorrer. Uma felicidade imensa toma conta do meu coração e volto a sorrir.”