Vindo do porto

Em recente viagem a Portugal, o fotógrafo de arquitetura Manuel Sá registra o cotidiano e as construções do país que, pelos anos de história compartilhada, em muito o lembram Salvador, sua cidade natal

Já faz alguns anos que a influência das mídias sociais se consolidou como certeira na transformação de relações pessoais e de trabalho. Em particular o Instagram – plataforma de publicação e compartilhamento de fotos e vídeos – foi essencial para Manuel Sá (@omanuelsa) decididamente abrir mão de seu trabalho em escritórios de arquitetura para, enfim, mergulhar de cabeça na fotografia.

A irrupção da arte fez parte da experiência de reconhecimento de uma nova cidade quando o fotógrafo se mudou para São Paulo, em 2013. À época, o que o trouxe foram as garantias de trabalho em escritórios legais. A possibilidade de rentabilizar a fotografia começou a parecer viável quando o pessoal do ArchDaily – um dos mais reconhecidos sites com informações e ferramentas para arquitetos – o procurou por causa da publicação de um ensaio sobre o conjunto arquitetônico do Solar do Unhão, Salvador (BA), postado na rede. “Pensei: ‘Tá, sou um arquiteto das 8h às 18h, mas tenho dedicado muito do meu tempo livre a isto’. Aí passei a prestar um pouco mais de atenção”, comenta o profissional.

Apesar de ter tido uma vivência privilegiada em uma cidade que abriga construções importantes, feito a hoje sede do Museu de Arte Moderna de Salvador, Manuel entrou para a Universidade Federal da Bahia sem muito fazer ideia de como funcionava este universo. Em um primeiro momento da faculdade, aprofundou seus conhecimentos no mundo digital – sempre gostou de 3D e de renders –, e passou a sustentar o curso com base nessas atividades de apoio. Depois dos estágios, porém, em um período que compreende até o final do curso, em 2010, já estava completamente apaixonado por fazer projetos. 

A semente fora plantada pelo irmão: quando Manuel estava no meio da adolescência, o mais velho já espalhava maquetes por todos os cômodos. Durante a graduação, porém, se deu conta de que preferia registrar projetos por meio de fotos em vez de fazê-lo por croquis.

Quando decidiu voltar os olhos ao interesse validado e guiado pela aprovação das curtidas e compartilhamentos online, os trabalhos começaram a surgir com mais frequência. As prioridades se inverteram na distribuição do seu tempo e, em 2017, abriu mão do trabalho em escritório. Hoje, além de disponibilizar imagens suas em fineart pela plataforma Arquitetônicas – o que também o impulsionou muito inicialmente –, realiza palestras, dá dicas e explica técnicas de fotografia arquitetônica em seu canal no YouTube, propõe séries criativas para gerar sua própria demanda e segue registrando projetos de casas, prédios, instituições e interiores em todo o País munido de sua Canon 5D.

A mesma mídia social que o encorajou a investir tempo e dinheiro na fotografia foi a que apresentou Manuel a muitos amigos e contatos profissionais. Bastou Raul Penteado (idsp arquitetos) clicar em algumas das imagens do feed do soteropolitano para o abordar com um convite: “Tenho um sonho muito louco de realizar um documentário sobre Álvaro Siza”, foi mais ou menos o que ele disse. Manuel topou na hora. 

A ida para Portugal foi justamente para filmar “o velhinho”, como brinca. Embarcou rumo à Europa um grande grupo de arquitetos de peso. Manuel, que, junto ao arquiteto e amigo André Scarpa, ficou responsável pela direção fotográfica do trabalho, resolveu antecipar a passagem e aproveitar para conhecer um pouco o país outrora colonizador. Inspirado pelo livro “Portugal”, de Cristiano Mascaro, desceu do avião com possibilidades abertas para tentar dosar a arquitetura do lugar com características particulares de fotografias de viagem. Porto e Lisboa, diz, despertaram nele memórias em relação à cidade onde nasceu, e, durante os 15 dias em que esteve em terras lusitanas, conheceu e materializou imageticamente também o dia a dia de cidades como Chaves e Mafra. 

Fruto primordial da empreitada, o filme que contará a história de Siza foi viabilizado pela Olé Produções, responsável também por documentários sobre Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha. A próxima etapa da produção envolve, agora, captação de imagens de projetos assinados pelo arquiteto português, entre os quais o da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre.

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Portugal é Mãe Solteira

Um recorte deliciosamente banal da vida de um imigrante brasileiro que morreu de amores pela terrinha

Por_Henrique Entratice

Portugal é uma paixão que aconteceu e ficou. Nossa história começou em 2013, quando eu era estudante na Faculdade de Direito do Mackenzie, em São Paulo. Com a possibilidade de estudar no exterior durante o curso, a ideia inicial era ir para Barcelona e viver a imagem construída da cidade jovem e praieira. Como a intenção do intercâmbio era o estudo, a capital da Catalunha acabou sendo uma barreira por conta da não fluência no espanhol/catalão. Fiquei entre duas opções: Londres ou Lisboa. Por questões de custo de vida de um jovem estudante, Lisboa ganhou. Ganhou, mas para mim, ainda era uma incógnita. O que vou fazer lá além de comer bacalhau e pastel de nata? Não tem Big Ben, não tem Sagrada Família. Foi com essa questão que comecei a entender que a magia de Lisboa não está nas grandes construções ou monumentos, mas no estilo de vida e na dinâmica da cidade.

Em setembro de 2013 pisei pela primeira vez em terras portuguesas, recebido com 32 graus Celsius de um céu azul Klein surpreendente. Que luz, Lisboa. Que céu azul! Fiquei encantado com a beleza e o ar charmoso, quase pitoresco.

Já no primeiro dia aqui o pôr do sol me deixou de perna bamba. Menino do interior que sou, o momento mais belo do dia é o lusco-fusco. Hora de parar, respirar, contemplar e refletir. Quando os crepúsculos começam a se formar no céu, numa mistura cores – às vezes fauvismo, às vezes impressionismo –, é o momento mais belo do dia. Numa cidade cheia de miradouros, todos eles com uma bela vista para o rio Tejo, entardecer bonito não faltará. Todos os dias um raio de luz dourado entra pela janela.

Encontrei na vida em Lisboa uma plenitude que não consegui achar em lugar nenhum. É um pequeno-grande vilarejo. Definir Lisboa sem cair nos mais comuns clichês é difícil, mas, a bem da verdade, é que são todos reais: ruas estreitas, roupas estendidas num varal externo, senhoras nas janelas conversando umas com as outras, cheiro de comida, jardins ensolarados e uma brisa constante. Foi assim que me apaixonei pela cidade.

Depois do meu primeiro ano lusitano, voltei para São Paulo para terminar a faculdade – mesmo com o coração querendo ficar. Nesse novo período, comecei a trabalhar em um museu e descobri a nova paixão que me movia: a cultura.

Acredito que cultura e educação são as ferramentas essenciais para uma sociedade melhor. Em tempos tão sombrios como o que vivemos no Brasil, ainda mais agora, que a arte passou a ser alvo de ataques e desmanches, essa posição se torna cada vez mais sólida em mim. É através da democratização da cultura que conseguimos ter uma sociedade mais igualitária.

Finalizei o curso de Direito no final de 2016 e comecei a pensar no próximo plano. Noites e noites acordado, decidi dar continuidade aos estudos, coisa que gosto de fazer, e voltar para Lisboa para um mestrado em Gestão Cultural. Uni três grandes paixões: cultura, estudos e a cidade.

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O Portugal que vivo hoje é completamente diferente daquele de 2013. Naquele ano, a crise econômica afetava boa parte da Europa e o país atingia sua taxa recorde de desemprego, com um sentimento geral de insegurança perante um futuro incerto.

O país de agora superou (e muito bem) os anos de crise econômica. A estabilidade política e as medidas contra a austeridade transformaram-no em um boom cultural. Indústrias criativas, startups e novos modelos de comércio transbordaram nos últimos anos. Em 2015, Lisboa foi eleita a capital criativa da Europa e, desde então, colhe os suculentos frutos dessa abertura ao novo. Lisboa hoje é reflexo disso, respirando inovação e cultura, com novos cafés, restaurantes, centros culturais, galerias de arte, museus e vários novos espaços. Pra todo lado há alguma novidade para se deliciar em ruas tomadas pela arte urbana. O soft-power português pulsa nesse momento.

Alguns arriscam-se a dizer que Lisboa é a “nova Berlim”, numa tentativa de comparar a capital portuguesa com a imagem urbana-cool que a alemã construiu nos últimos anos. Eu, pessoalmente, não vejo assim. Lisboa é Lisboa. A magia é outra, e Berlim (que também é uma cidade fantástica) não é uma régua para ser comparada com outras cidades. O boom cultural e social de Lisboa tem outro contexto.

Portugal não é só Lisboa. Portugal também é Porto, outra cidade mágica, que, para explicar, cito a mais engraçada das referências que aprendi aqui: sabe os filmes do Harry Potter? Então, o cenário é o Porto. Desde a mágica Livraria Lello até o traje acadêmico da Universidade do Porto – a cidade em que J.K. Rowling, autora da saga, passou dois anos de sua vida ensinando inglês – é de onde veio boa parte de suas inspirações. As ruas estreitas e os pequenos prédios dão um charme incrível à cidade. Diferente de Lisboa, Porto é mais bruta e cinza, o que dá outro encanto para a cidade.

Portugal sempre me traz novas descobertas: a última delas foi o Palácio Nacional de Mafra (conhecido como Convento de Mafra), na cidade de mesmo nome. A construção barroca, que serviu de residência ao rei dom João VI antes de fugir para o Brasil nas invasões napoleônicas, guarda uma biblioteca de tirar o fôlego com 36 mil exemplares (o mais antigo é de 1493). O Palácio serviu de referência para José Saramago escrever a obra “Memorial do Convento”, que fala do contexto de sua construção, com a vinda de diamantes e ouro do Brasil e da corrupção daquela época. Se inspirou Saramago, vale a pena.

O custo de vida barato e o bom clima, aliados ao terreno fértil para o empreendedorismo, trouxe uma quantidade gigante de novos moradores para Portugal – de todos os lados do continente europeu e do mundo. É o “Madonna Effect”, já que inclusive a rainha do pop escolheu aqui para ser sua nova casa. Todos os holofotes estão voltados para cá.

“Sabe, no fundo sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo”, disse Chico Buarque em seu “Fado Tropical”. É com esse entusiasmo que aproveito dias felizes em terras lusitanas.

Hoje meu lar é aqui porque foi para cá que a busca pela minha própria felicidade me trouxe. Um dia, meu pai escreveu: “Quando aqui, com saudades de lá; quando lá, com saudades daqui”. O sentimento é exatamente esse. Navegar é preciso, mas eu volto. Ô, se volto.