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O dia não passa de um retrato

Bob Wolfenson, German Lorca, Irving Penn: as histórias cruzadas entre três fotógrafos que estetizam a vida e transformam em arte até os temas mais prosaicos

Cada qual a seu tempo começou na época da máquina analógica, do filme de celulose, do conta-fios, das folhas de contato, das mesas de luz e dos laboratórios fotográficos. Eram aqueles quartinhos escuros banhados de luz vermelha onde havia bacias cheias de emulsão fotográfica com cristais de prata que tinham o poder de dar vida à imagem ampliada e revelada em papel sensível à luz. Havia muita técnica e arte na própria revelação. Irving Penn (1917-2009) foi fiel à fotografia analógica até o fim. Em 2014, German Lorca, aos 92 anos, empunhou uma câmara digital pela primeira vez e com ela fez um ensaio construtivista, registrando sombras e elementos de seu quarto ao se ver obrigado a ficar uns meses acamado. O resultado virou livro, exposição e referência. Já o caçula Bob Wolfenson passou sem dor e sem dó de uma técnica a outra com igual brilhantismo. Um dos únicos ensaios que as lentes desses três mestres jamais registrou foi a guerra. Por outro lado, suas imagens sangraram – e, no caso de Bob, o único na ativa, sangram – as capas e páginas de inúmeras revistas estampando seus olhares intuitivos e reveladores do cenário artístico, social, político e fashion da época. Exímios artesãos da fotografia em preto e branco, eles não deram as costas à foto colorida nem aos registros comerciais. Mas jamais deixaram de lado seus projetos pessoais – afinal, as imagens de autor, eles bem sabem, realimentam a criatividade, desafiam o déjà vu. Clique após clique, provaram-se mestres da composição por meio da organização dos elementos, com seus ângulos, contrastes e volumes mais suas formas, texturas e sombras, em enquadramentos de perfeição gráfica que isolam o excesso e se inspiram na estrutura das pinturas da história da arte, produzindo imagens que excitam as pupilas e estimulam o observador. Em 2018, Penn, Lorca e Bob foram homenageados em três individuais em São Paulo que exaltaram a fotografia em preto e branco. Na ponta norte da Paulista, o Instituto Moreira Salles abrigou “Irving Penn: centenário”, em parceria com o museu Metropolitan de Nova York. No lado sul da avenida estava “German Lorca: Mosaico do Tempo, 70 Anos de Fotografia”, no Itaú Cultural. No centro, o Espaço Cultural Porto Seguro apresenta “Bob Wolfenson: Retratos”, com 200 famosos plasmados por suas lentes (até 9/12). O filósofo da fotografia contemporânea Vilém Flusser já dizia: “Os fotógrafos, a bem da verdade, não trabalham, mas se dedicam a criar, a processar e a armazenar símbolos”. 

Bob Wolfenson [1954] 

Lula, Gisele, Caetano, Laerte e Pelé são algumas das nossas celebridades que as lentes desse paulistano nascido no Bom Retiro vêm capturando desde os anos 1980

POP-SE: Bob, sua fotografia transita em várias áreas. Como analisa essa pluralidade?   

Bob Wolfenson: Transito por várias facetas da fotografia e, mais que isso, advogo a ideia de estar em trânsito. Eu não seria o fotógrafo dos meus trabalhos pessoais se eu não fosse o de retratos, nus, moda e publicidade. Preciso de todos para ser um. Esta é uma questão que intriga as pessoas e a mim mesmo. Mas é assim que sou desde sempre. Um dos meus próximos projetos vai se chamar “Who The Fuck Is Bob Wolfenson”, que, em certa medida, é um mergulho nessa questão. 

P: Uma vez você disse: “O ato de fotografar para mim não é sagrado nos termos em que pensavam Cartier-Bresson e Capa”. Se não é sagrado, então, como pensa a fotografia?  

BW: Apesar de utilizar elementos da realidade em todos os meus trabalhos, o ato de fotografar para mim é uma construção ficcional a partir de premissas estabelecidas antes do ato em si. 

P: Quem o inspirava no começo? Quem o inspira agora?

BW: Quem sempre me inspirou e inspira até hoje é o gênio máximo, o fotógrafo Irving Penn, pelo seu rigor, senso de beleza e elegância, e também por ser alguém como eu, múltiplo. Mas o que me inspira verdadeiramente são a minha experiência, os meus encontros, a psicanálise – que faço há mais de 20 anos –, minhas leituras, meu País, viagens, meus amores e filhos. Na verdade, nunca sei muito de onde parte algo que tenho em mente para realizar. Depois, quando estou fazendo, escrevo e vou encontrando alguns nexos.

P: Com tanta imagem sendo produzida hoje por qualquer um, o que o fotógrafo profissional deve ter em mente?  

BW: Tem um statement que explica bem o que acho disso: em uma palestra, um professor pergunta à plateia de brasileiros – mas poderia ser de qualquer país: “Quem de vocês aqui fala português?” Todo mundo responde que sim. “Quem de vocês escreve em português?” Todo mundo responde em coro que sim. “Mas quem de vocês é escritor?” Um ou dois levantam a mão. A fotografia é, digamos assim, a escrita dos novos tempos. Mas quem é fotógrafo? Muito poucos. Não é fácil ser verdadeiramente bom naquilo que se escolhe como profissão, essa é a questão.

Irving Penn [1917-2009]

Acima de tudo, a fotografia de Irving Penn contribuiu para que a técnica de capturar a imagem através da câmara fosse considerada uma manifestação da arte moderna

A expressividade de suas imagens de moda para a revista “Vogue” por seis décadas; a capacidade de capturar a alma dos famosos de seu tempo em retratos de intrigante simplicidade; a plasticidade escultórica de suas fotos publicitárias para a marca Issey Miyake; as composições inspiradas na natureza morta do século 17 para os stills dos cosméticos Clinique; e, finalmente, a série “Cigarette Butts” com 23 retratos de bitucas de cigarro recolhidas das ruas de Nova York, ampliadas em grande formato pelo próprio Irving Penn, ele mesmo um não fumante, introduziram o minimalismo na fotografia e foram elevadas à arte. 

Viver da pintura era seu sonho até sacar que seu futuro não era diante da tela, mas atrás da câmara. O filho de imigrantes estabelecidos em New Jersey, EUA, mudou o sobrenome e cursou desenho industrial com Alexey Brodovitch, imigrante judeu russo assim como todos de sua família. Percebendo a motivação do jovem, o brilhante designer gráfico abriu seus olhos para a arte, a arquitetura e a fotografia. Em 1934, feito diretor de arte da “Harper’s Bazaar”, Brodovitch promoveu-o a seu assistente. Ainda não plenamente convencido de sua falta de talento como pintor, Penn resolveu investir na pintura tirando um ano sabático para praticar o ofício no México e no Peru, e levou consigo uma máquina fotográfica (são dessa época os antológicos retratos dos índios peruanos quéchuas contra uma lona velha e suja, sua primeira incursão em séries de cunho antropológico). Na volta, arrasado por constatar que não dava mesmo para a pintura, outro brilhante imigrante judeu russo o tirou da depressão: o diretor de arte da “Vogue” Alexander Liberman, contratou-o como assistente de layout com a responsabilidade expressa de transmitir aos fotógrafos como deveriam ser concebidas as opções de fotos da capa da revista do mês. Um belo dia, Brodovitch viu as folhas de contato com as imagens que seu assistente de 26 anos fizera durante a tal viagem à América Latina. Nelas, o diretor de arte percebeu um olhar autoral e encomendou a Irving Penn seu primeiro trabalho como fotógrafo. Era 1943. O resto é história da fotografia.

German Lorca [1922]

Entrevista com o especialista em fotografia vintage Pablo Di Giulio, há dez anos representante da obra de German Lorca e fundador da Galeria Utópica, antiga FASS

POP-SE: Pablo, o que distingue o Lorca dos outros fotógrafos do Foto Cine Clube Bandeirantes (FCCB)?

Pablo Di Giulio: Lorca foi sócio do clube de 1948 a 1952 e um dos únicos a se tornar fotógrafo profissional. Ele trabalhou com fotografia comercial nos anos 1950, 1960 e 1970, décadas de seu apogeu. No entanto, enquanto faturava com publicidade, ele jamais deixou de fazer seu trabalho autoral, que começa a partir do decênio de 1940, quando pega numa máquina pela primeira vez, até 2014, aos 92 anos. Enquanto fotografava para um cliente, ele dava uma paradinha e fotografava outra coisa para ele mesmo. Foi assim com as duas fotos icônicas no aeroporto de Congonhas, em 1961 e 1965. Esta última está na capa de seu livro “A São Paulo de German Lorca”, lançado na Biblioteca Mário de Andrade, em 2013.    

P: Qual a diferença entre a fotografia de Lorca e a de outro membro do FCCB, como o multimídia Geraldo de Barros? 

PDG: Lorca é um modernista nato. Ele não é um modernista teórico como Geraldo ou Thomaz Farkas, intelectuais que liam e debatiam sobre arte. Lorca é o oposto, é guiado pelo instinto, não pela razão. Veja bem, não o estou criticando, ele tinha que ganhar a vida, vinha de uma família de imigrantes espanhóis do Brás. Quando se associou ao FCCB, ele era um contador que viu na fotografia um jeito de poder fazer mais dinheiro. Lorca era mais pragmático que os outros sócios, na maioria, rapazes da classe média paulistana. Ele aprendeu na prática, fotografando diariamente.    

P: Como ele se posiciona na pirâmide da fotografia brasileira? 

PDG: Ele está entre os três ou quatro fotógrafos brasileiros que possuem um mercado. Lorca tem uma obra extensa, não fotografou quatro anos e parou, como muitos fazem. Ele tem sete décadas fotografando diariamente – é fantástico – e é o único membro vivo do foto clube original. Por tudo isso, hoje, mais que nunca, ele é muito solicitado, seu nome está constantemente sendo promovido. Seu trabalho foi recentemente incorporado à coleção do museu Tate Modern de Londres e, em 2019, ele participará de uma exposição no MoMA de Nova York. Hoje, aos 96 anos, está no topo da carreira. 

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