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A última grande diva

Legendária cantora norte-americana que carregou o status de maior voz da história do pop até o último de seus dias (quem sabe, pela eternidade), Aretha Franklin deixa para a humanidade muito mais do que um legado musical de enorme envergadura. Foi uma das pioneiras a converter em oitavas afinadíssimas o posicionamento feminista, político e social como uma das mais importantes missões dos ídolos da cultura de massa – desde a luta pelo registro eleitoral dos negros na segunda metade dos anos 1960 até a ditadura da magreza que ainda assola a indústria do show business

Quando a jornalista norte-americana Liz Smith, crítica de música do “New York Post”, escreveu sua resenha em 1993, certamente não sabia que estava cutucando um vespeiro com a ponta do dedo mindinho. Após rasgar elogios à legendária Rainha do Soul, a repórter magricela resolveu encerrar o artigo com um parágrafo no mínimo desastroso: “Miss Franklin deveria saber que seus seios são muito fartos para determinado tipo de roupa, mas ela simplesmente não liga para a nossa opinião e é essa a atitude que separa estrelas de divas”. Naquela tarde, Aretha enviaria à redação do jornal, por fax, um recado escrito à mão: “Como você ousa ter a presunção de achar que pode julgar as minhas atitudes acerca de qualquer outro assunto que não seja a música? Obviamente eu possuo mais do que suficiente daquilo que é necessário para rechear um bom sutiã e nenhum homem jamais reclamou a respeito. Tenho certeza de que você também faria o mesmo se pudesse. Além disso, você dificilmente estará numa posição para avaliar o que separa uma estrela de uma diva, visto que nunca será nem uma, nem outra”.  

Reza a lenda que ela era carne de pescoço. Mas quem se importa? Aretha Franklin carregou, até o último de seus dias – 16/08/2018, uma quinta-feira abafada do verão americano –, o cetro de maior cantora da história. Escorado pelas 21 estatuetas do Grammy que abocanhou, pelos 112 hits no ranking da “Billboard” que emplacou e pelos quase 90 milhões de discos que vendeu, o status é incontestável: passa pelas opiniões inflamadas de Quincy Jones a Frank Sinatra, de Nelson Mandela a Alfred Hitchcock, de Oprah Winfrey a Elton John. Mas se alguém ainda torcer a napa, vale chupar essas mangas: a “Time”, bíblia da imprensa, em 1998, apontou-a, ao lado de Picasso, como uma das maiores influências culturais do século 20. A lista definitiva da “Rolling Stone”, que ranqueou os 100 maiores vocalistas da história, colocou Aretha em primeiríssimo lugar, na frente de Caruso e Frank Sinatra. A Assembleia Legislativa de Michigan tombou, nos anos 1980, sua voz como “um recurso natural do Estado”. Entre avenidas, teatros e edifícios batizados com o seu nome, a estrela na Calçada da Fama de Hollywood, biografias autorizadas e não autorizadas, documentários controversos, musical na Broadway e longa-metragem a caminho, a Câmara de Washington declarou o dia 25 de março como Dia de Aretha Franklin. Os maiores ícones da comunicação, tipo Truman Capote, dissertaram longas crônicas sobre ela, que cantou no funeral de Martin Luther King e na posse de quatro presidentes dos EUA (Jimmy Carter, George W. Bush, Bill Clinton e Barack Obama – este último, aliás, flagrado chorando durante uma de suas apresentações: jogue no YouTube “Aretha makes Obama cry” e tire suas próprias conclusões). Não é de se espantar, né? Com alcance de quatro oitavas, uma inacreditável capacidade de improvisação e graves e agudos de arrepiarem os cabelos dos países baixos, ao interpretar uma canção, Aretha não empregava apenas seus atributos técnicos e físicos: com a fé inabalável de quem sempre bateu no peito para se apresentar como filha do reverendo C.L. Franklin, imprimia nas canções a alma que lhe renderia o título de “The Queen of Soul” e arregimentou idólatras fervorosos ao redor do planeta – esse jornalista baba-ovo que vos escreve, entre eles. Pianista virtuosa e compositora inspirada, politizada da derme ao tutano, ícone de causas sociais, cozinheira de mão cheia e em guerra constante com a balança – chegou a ultrapassar a fronteira dos 120 quilos nos anos 2000 –, a diva das divas perdeu uma longa batalha para o câncer de pâncreas (quando subiu na balança pela última vez, estava com menos de 40 quilos). Deixou quatro filhos de pais diferentes (o mais velho, Clarence, 63 anos; o mais novo, Kecalf, 48), três netos, mais de mil gravações legendárias e muitas bandeiras de feminismo, engajamento social e empoderamento – quando essa palavra ainda nem existia. Seu funeral, realizado em 31/08/2018, após dois dias de caixão aberto para visitação pública no Museu de História Afro-Americana, em Detroit, onde sentinelas formaram longas filas em vigília para o adeus final, foi uma celebração musical com staff quase tão numeroso quanto o do clipe de “We Are The World” – teve apresentações de Stevie Wonder a Ariana Grande, passando por Jennifer Hudson, Jennifer Holiday, Chaka Khan e mais um séquito de discípulas que alcançaram fama no encalço de sua arte. Dentro do féretro (banhado a ouro, é claro, com certificado de qualidade do mesmo serviço responsável pelo extravagante cerimonial de Michael Jackson, quase dez anos atrás), trajando dress code vermelho-Valentino combinado a vertiginosos saltos Louboutin e batom carmim, a rainha foi enterrada com as pernas cruzadas, ao som de um coral gospel de 100 vozes cadenciado pelo chororô de fãs dos quatro cantos do planeta. Jamais haverá outra Aretha Franklin.

Prima-dona (da po!+,a toda)

Quando o tenor italiano Luciano Pavarotti ficou doente e precisou cancelar sua apresentação na cerimônia do Grammy de 98, foi Aretha quem o substituiu numa performance arrebatadora de “Nessun Dorma”, ária da ópera “Turandot”, de Giacomo Puccini. Do gospel ao erudito, poucas cantoras tiveram sua versatilidade tão bem aproveitada quanto ela, que se tornou, ao longo das décadas, um mito do blues, do jazz, do hip hop, do pop e do rock (foi a primeira mulher a entrar no “Rock’n Roll Hall of the Fame”, antes mesmo de Janis Joplin ou Tina Turner). Velho amigo pessoal, Pavarotti sonhava em levar Aretha para a Itália e, certa vez, ofereceu buscá-la em seu avião particular (ela tinha pânico de aeronaves desde 1982, quando embarcou num voo turbulento e confinou suas turnês a rotas terrestres, passando a se apresentar apenas pelos Estados Unidos – “você pode encostar o carro, descer e comer no Red Lobster. Mas não pode fazer isso se estiver a 35 mil pés de altitude”, declarou, em 1988). Pouco antes do trauma, cantou em mais de 30 países, mas bateu na trave no Brasil. Ameaçou se apresentar por aqui meia dúzia de vezes entre 1968 e o começo dos 80s, quando deixou a comitiva esperando no Galeão e os milhares de fãs que esgotaram os ingressos do Maracanãzinho, a ver navios. Em 24/03/1982, o caderno B do “Jornal do Brasil”, publicou a seguinte reportagem: “A cantora norte-americana Aretha Franklin não mais virá ao Brasil para a anunciada temporada que faria de hoje a 4 de abril no Rio e em São Paulo. Ela estava sendo esperada ontem, mas à última hora enviou um telex ao contratante, Marcos Lázaro, informando que seu pai, o reverendo Franklin, está muito doente. A empresa Showmar, responsável pela venda dos ingressos, informou que os compradores receberão o dinheiro de volta. – Temos um seguro que paga todas as despesas do cancelamento, que respeitaremos por se tratar de um caso de doença e não de uma volta atrás no contrato. Ele não disse exatamente quantos ingressos foram vendidos, mas admitiu que a previsão tanto do concerto do Maracanãzinho quanto das apresentações mais privadas no Rio Palace Hotel e no Gallery, era de casas lotadas”. Cano para Tim Maia nenhum botar defeito. Manoel Poladian, obelisco responsável por megaconcertos no Brasil desde 1961, me contou dia desses, no backstage da mais recente apresentação de Dionne Warwick no Espaço das Américas, em São Paulo, que tentou trazer Aretha nada menos do que nove vezes. “Numa delas, o patrocinador era tão generoso que ela poderia ficar em casa um ano sem trabalhar. Mas ela não subiria no avião nem por um decreto”, disse.

Residia aí uma das poucas fraquezas de uma artista tida como fortaleza. Filha da cantora gospel Barbara Siggers e do reverendo C.L. Franklin (missionário carismático que fundou a própria Congregação Batista, popular na era do rádio como “a voz de um milhão de dólares”, dado o carisma com os fiéis), a biografia de Aretha é praticamente a mesma de quase toda grande cantora negra norte-americana, cuja gênese se dá, geralmente, nos corais litúrgicos, entre um quinhão de talentos divinos e outro punhado de tragédias pessoais, da violência doméstica ao abuso de álcool. Nascida em 25 de março de 1942 em Memphis, sul dos Estados Unidos, viu a mãe fugir de casa com o vizinho (cantoras gospel não vêm com certificados “bolsonarianos” de santidade) e assumiu logo cedo as responsabilidades. Aretha e suas irmãs (as cantoras Erma, Cecil e Carolyn) foram criadas por tias e irmãs linha-dura, disciplinadas pelas aulas de religião e piano (posicionado como uma espécie de altar na sala de estar). Foi durante os cultos domésticos orquestrados pelo pai, naquele mesmo velho instrumento, que a menina rechonchuda de personalidade forte testemunhou dedilharem nomes como Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Clara Ward e Oscar Peterson. Na constelação cintilava a grande Dinah Washington, sua principal referência e madrinha artística. “Me trancava no banheiro com a vitrola e ficava imitando tia Dinah com uma escova de cabelos no lugar do microfone”, declarou. Mahalia Jackson, ursa maior do gospel, também era muito próxima à família. Os coleguinhas de travessura, futuros astros do naipe de Smokey Robinson (o sujeito que ajudou Berry Gordy Jr. a fundar a Motown, gravadora-matriarca da black music). Contaminada por essa atmosfera, aos 10 anos tornou-se principal solista do coro no templo. Não quero me aprofundar em desgraças sensacionalistas, mas vale registrar que, com apenas 12 aninhos, ela engravidou e, aos 13, já era mãe solteira. Avancemos para os 14, quando a menina prodígio gravou seu primeiro disco, “Songs of Faith”, acompanhada pelo próprio piano. Mais tarde, em, 1961, assinou com a Columbia, pelas mãos de John Hammond, produtor de ninguém menos que Billie Holiday. “Aretha é a maior voz que ouvi desde Billie”, declarou. Nove álbuns – e pouco sucesso comercial – depois, resistiu aos convites da sua tribo na Motown por conta de uma suposta rivalidade com Diana Ross (então à frente das Supremes e musa – e amante – de Gordy) e migrou para a Atlantic, explodindo para o mundo com “I Never Loved a Man the Way I Love You”, disco que incluía a acachapante “Respect”, um dos maiores hits de todos os tempos convertido em espécie de hino na luta pelos direitos civis. Daí por diante passou a girar uma discografia de fazer cair o queixo, insuperável ao ponto de ressoar tão viçosa nos velhos gramofones da Philco da segunda metade do século 20, quanto nos iPods dos anos 2000, passando pelo Bluetooth de hoje – aliás, caso você ainda não tenha baixado uma música de Aretha, saiba que está mais por fora do que cotovelo de caminhoneiro.  

Para citar uma de suas muitas obras magnânimas, está o apocalíptico “Young, Gifted and Black”, álbum de 1970, com faixa título über-politizada composta por Nina Simone – Aretha sempre foi conhecida pelas regravações cheias de personalidade, que traziam, tanto na interpretação visceral, quanto nos vocais de apoio, a técnica gospel que caracterizou seus trinados, não importasse o estilo da canção. Procure aí no Spotify suas versões para “Let it Be”, dos Beatles, “Oh me, Oh my”, de B.J. Thomas, “Border Song”, de Elton John ou até a recentíssima “Rolling in the Deep”, da Adele, e me conte depois. “Aretha Live at Fillmore West”, de 1971, é o melhor disco ao vivo que já ouvi (e, sem trocadilhos infames: escutei quase até morrer). “Sparkle”, trilha do filme homônimo de 1976 (com remake de 2012 com Whitney Houston no elenco), é um dos maiores tesouros da soul music, produzido pelo papa Curtis Mayfield, a quem Aretha apelidou de “Meu Bacharach Preto” (impossível ouvir uma das faixas e não estacar os pézinhos no chão ao ritmo da batida, mesmo se o seu reumatismo estiver atacado e sua unha, encravada). Não à toa ela influenciaria um amálgama de intérpretes universo adentro, incluindo alfândegas transatlânticas, de Gal Costa a Alcione, de Celia Cruz a Omara Portuondo. Quer um tira-teima do fundo do baú? Lá vai: estrelas da Jovem Guarda, Vanusa e Antônio Marcos batizaram sua primogênita, também cantora, com o nome da diva, mais de quatro décadas atrás. Tive a oportunidade de trabalhar com diferentes gerações de cantoras populares (parte delas recheando essa edição, de Elza Soares a Sandra de Sá, de Rosana a Paula Lima) e sei que elas também endossaram seus saberes a partir da cartilha de Aretha. Compartilho um WhatsApp que recebi de Baby do Brasil: “Não fosse a fé e a certeza que me invade de que existe vida eterna, eu estaria muito mais triste do que fiquei ao saber que não teremos mais no planeta a presença com a voz espetacular dessa incrível cantora. Ela nos devolve, cada vez que a ouvimos, a essência da musicalidade que a humanidade precisa para mergulhar na criatividade. Aretha é fundamental para a música mundial, uma joia rara de valor inestimável que brilhará entre nós enquanto a Terra durar. E, com certeza, Deus já a escalou lá na Glória para solar no grande coral celestial”. Amém? A fé inabalável da nossa irmã de madeixas roxas era compartilhada com miss Franklin, que revisitou suas raízes com todo o gás no quase catequizador “Amazing Grace”, de 1972. Sem loopings de ostracismos ou períodos sabáticos longe dos palcos, produziu sem parar, exceto por um pause ligeiríssimo quando adoeceu. Numa linha completamente antagônica, outro marco vanguardista de sua trajetória é “A Rose Is Still a Rose”, de 1998, cuja faixa homônima composta, produzida e arranjada por Lauryn Hill (então vocalista do fenômeno do hip hop Fugees), endossa o quanto a mocinha que queria ser Mahalia, Ella e Dinah jamais parou no tempo (e chegaria muito mais longe do que todas elas juntas). Neste momento, em algum lugar do mundo, certamente, alguma futura diva está dublando Aretha Franklin com uma escova de cabelos – quiçá, com uma chapinha de babyliss.

Um pouco mais de respeito, por favor

“Em sua voz, podíamos sentir nossa história, toda ela em todos os tons – nosso poder ou nossa dor, nossa escuridão ou clareza, nosso questionamento ou redenção e nosso respeito duramente conquistado”, declarou Barack Obama. Nem Bessie Smith, nem Billie Holiday. Nem Marlene Dietrich, nem Edith Piaf. Nem Maria Callas, nem Montserrat Caballé. Nenhuma outra prima-dona de qualquer segmento da indústria fonográfica cantou (e causou) mais que Aretha Franklin. Poucas também se posicionaram com tanta veemência  – talvez só Mercedes Sosa ou Nina Simone, diretamente ligadas a movimentos políticos específicos. Só que as poucas concessões artísticas que fizeram na vida jamais permitiram que elas chegassem a ser fenômenos de vendas, infelizmente. Poucas delas, também além de Nina (definitivamente, um caso à parte, já que fora diagnosticada com transtorno bipolar), foram tão excêntricas para muito além de escândalos ou chiliques na frente dos paparazzi. Sem descer do salto mesmo nos anos do rehab, Aretha imprimia um certo blasé que lhe imputou, em alguns momentos, a fama de arrogante, mas jamais deixou de assumir suas atitudes, mesmo quando surfou na onda das tendências musicais e gravou, sobretudo na transição das décadas de 1980 e 1990, um repertório, digamos, inferior ao que sua realeza supunha. 

Se você teve a oportunidade de assistir a algum concerto dela (no YouTube há centenas deles), deve ter percebido uma particularidade: invariavelmente a mulher entrava no palco a bordo de um casacão de pele (natural, para desespero do Peta e de outros ecochatos, como eu) e uma portentosa bolsa, geralmente, Louis Vuitton (empilhava uma coleção de mais de 100 delas no closet). O que havia por trás do ritual é ainda mais curioso: dentro do acessório, disposto às suas vistas e ao alcance das mãos, entre o maestro e o piano, havia uma pequena fortuna. Fazia questão de receber seu quinhão em notas de US$ 100, no backstage – por um dos últimos concertos, já debilitada, em 2017, teria embolsado nada menos do que 300 mil dólares, conferidos nota por nota na coxia. Funcionava assim: os contratantes davam o sinal, pagavam todas as despesas da numerosa orquestra (que incluía nada menos do que cinco backing vocals, além de naipe de cordas e metais) e respectivas comissões do empresário, mas o montante da diva tinha que vir direto da fonte, sem intermediários, verdinha em cima de verdinha. Alguns biógrafos atribuíram o hábito à mão leve de seus amantes, principalmente quando enfrentou problemas sérios com a bebida na década de 1970 e meio que perdia a noção; outros, ao tanto de vezes que testemunhou seu amigo Ray Charles, cego, ser passado para trás. Demasiadamente desconfiada ou não, Aretha sabia das coisas: deixou uma fortuna calculada em 80 milhões de dólares (além das cifras incalculáveis em royalties) sem jamais passar por sovina. Era generosa com a família e com os amigos, mimava os netos e sobrinhos com carrões, financiava projetos culturais, ajudava músicos em decadência, armava altos rega-bofes em sua mansão em Detroit (normalmente animados pela amiga Chaka Khan – uma de suas cantoras prediletas – e com quitutes assinados por ela própria, incluindo suas disputadas costeletas de porco e um suspeito pudim de banana cuja receita ensinou no programa da Oprah), além de dedicada à caridade, marcando presença em eventos beneficentes. Era democrata militante e tinha passe livre na Casa Branca, conforme o presidente Bill Clinton lembrou ao discursar em seu velório – ocasião em que foi acusado de assédio pela olhadela capciosa sobre as costas nuas de Ariana Grande, que a homenageou interpretando “You Make Me Feel Like a Natural Woman”, talvez seu maior hit depois de “Respect”. Em tempos de verdades vorazes e instantâneas em clima de reality show, Ariana também teria tido o seio esquerdo ligeiramente apalpado pelo bispo Charles H. Ellis. Aretha, que não cansava de enviar faxes à imprensa para dar sua opinião apoiando toda justa causa da mulherada, teria emitido mais um, certamente. Declaradamente “Body Positive” (sem vergonha dos quilinhos a mais), emplacou a trilha oficial do feminismo ao longo das décadas em muitas bolachas além de seu clássico soletrar de “r-e-s-p-e-c-t”. O dueto com Annie Lennox, do Eurythmics, “Sisters Are Doing It For Themselves” (“Irmãs Estão Fazendo Isso Para Elas Mesmas”) teve efeito “queima de sutiã” na Arista Records, que quase suspendeu o lançamento do single numa época em que polêmicas como as de George Michael (partner de Aretha na maravilhosa “I Knew You Were Waiting” – outra das minhas prediletas) e sua notória briga com a Sony Music mais atrapalhavam do que engordavam as vendas. 

Claro que esse papel meio que de porta-voz de uma geração se manifestou muito antes disso tudo. Seu engajamento político nos 60s fez dela uma pioneira na arte de usar sua relevância para influenciar uma massa crítica naqueles anos pesados de segregação no sul dos Estados Unidos, época em que a Ku Klux Klan aprontava o diabo com as bênçãos do Governo. Aos 18 anos, ela já frequentava os comícios de King pelo país. “Ficava atrás dele. Era muito jovem, mas engajada o bastante para participar e pleitear um futuro melhor para o meu filho. Meu pai foi a primeira pessoa a ler ‘I Have a Dream’ e a gente trabalhava duro pelos nossos direitos, inclusive eleitorais”, contou, referindo-se ao texto mais iconográfico do movimento. Ao lado do Reverendo Franklin, aquela pirralha precoce em tudo ajudou a organizar a Caminhada pela Liberdade de Detroit e cantou com a “tia” Mahalia Jackson para arrecadar fundos para a Grande Marcha a Washington. No documentário “Libertem Angela Davis” (EUA, 2012), que conta a trajetória da jovem professora universitária do Alabama, Davis comenta que Aretha teria bancado, junto com Nina Simone, tanto parte das custas processuais quanto de sua fiança, embora revogada. A cantora não chegou a ser presa ou sofrer atentados, mas teve vários de seus shows monitorados pela inteligência da polícia, e colecionava ameaças. A cada uma delas, cantava mais alto. Pouco antes de seu assassinato, em 1968, Luther King entregou a ela o prêmio de Cidadã-Modelo pela Conferência Cristã do Sul, fundação que presidia. Aretha retribuiria dois meses depois, arrancando lágrimas da audiência ao cantar “Precious Lord, Take My Hand” no funeral do ativista mais emblemático que a América conheceu. 

Do gospel ao erudito, poucas cantoras tiveram sua versatilidade tão bem aproveitada quanto ela, que se tornou (…) um mito do blues,  do jazz, do hip hop, do pop e do rock

O lado B de Aretha

Baseado em fatos reais, o livro “The Help”, romance de estreia da escritora norte-americana Kathryn Stockett (que Hollywood materializou em filme espetacular em 2011, e que proporcionou a Octavia Spencer o Oscar de melhor atriz coadjuvante), trata de uma das questões pelas quais Aretha se manifestou com força nos anos dourados: a labuta suada das empregadas domésticas afro-americanas – obrigadas a andar mais de três horas a pé para chegar ao trampo, se “desinfetar” com creolina antes de entrar na cozinha, e impedidas de usar o mesmo banheiro da família, entre outras regras que nem o próprio Satanás seria capaz de regulamentar. Geograficamente um dos lugares mais chapa-quentes dos conflitos raciais nos EUA, Jackson, Mississippi, era o cenário. Um dos contos do livro/filme é inspirado no relato de uma criada que, após anos de maus tratos, ao fim de mais um dia abusivo, exausta e com a bexiga craquelando, se recusou a fazer xixi na “casinha” lá de fora durante uma tempestade, e acabou expulsa aos pontapés pela patroa no meio do dilúvio. A crueldade da dona da casa motivou, na minha modesta opinião, uma das vinganças mais deliciosas e originais da história recente do cinema. Se você não assistiu ainda, pule o próximo parágrafo, porque vai ter spoiler, sim: como a secretária do lar era insuperável no quesito forno & fogão, dias depois do quiproquó, a madame histérica e ruim de panela, pressionada pelo marido faminto, resolve chamá-la para uma “segunda chance”. No reencontro de trégua, Minny Jackson, a empregada que não podia privar do mesmo vaso que os branquelos, aparece com a torta de chocolate predileta da patroa Hilly Holbrook. Depois de se empanturrar, já na terceira fatia, feliz da vida com as tratativas para a volta da secretária do lar mais eficiente daquelas bandas, Hilly resolve perguntar: “Esse doce está mais espetacular do que qualquer outro que você já fez. O que você colocou aqui, Minny?”. “Ah, Senhora Holbrook… uma boa baunilha do México e um ingrediente raro, feito especialmente para você nesta manhã. Mas não deixe nem o patrão, nem sua mãe experimentarem, porque eles não merecem. Essa torta é só sua.” “Mas que bobagem, que ingrediente tão sensacional seria esse?” “Algo que só eu poderia lhe proporcionar, senhora: no lugar do chocolate, leva todo o meu cocô.” Aretha foi uma das maiores entusiastas do longa e gravou um depoimento para o “Jay Leno Show” elogiando Spencer e Viola Davis, protagonista do filme.  

Mas se artistas incensadas costumam ter fama de intratáveis, a Rainha do Soul trabalhou bem na manutenção dessa imagem. Ao mesmo passo em que protagonizava duetos antológicos com hitmakers como Mary J. Blige (uma das suas principais pupilas e estrela do tema de “The Help”) e Mariah Carey, as brigas públicas com suas contemporâneas da black music como Patti Labelle, Gladys Knight, Roberta Flack e, principalmente, sua arquirrival Dionne Warwick, se tornaram um prato cheio para os tablóides ao longo das décadas. Eram os anos 1960 quando Dionne se tornou a grande musa de Burt Bacharach e Hal David (magos da idade da vitrola), que compuseram canções bombásticas que fizeram dela um produto comercial bem mais eficaz que Aretha naquele período. Dionne, que o mercado tratava como uma espécie de versão black de Barbra Streisand, também era considerada mais bonita, e, para entornar o caldo, não tinha problemas com o peso, conseguindo se enveredar, ainda que de leve, pelo cinema, o que alimentava os boatos de um suposto despeito de Lady Soul (que fez apenas duas pontinhas na telona, praticamente no papel dela mesma, no blockbuster “The Blues Brothers”, de 1980, e na sequência de 2000). Velha amiga do clã, Aretha era comadre de Cissy Houston (a mãe de Whitney Houston e tia da Dionne) – sei que parece meio confuso, mas procure entender essa inacreditável árvore genealógica, que também se ramifica em outras performers badaladas da era de ouro da música negra, tipo Dee Dee Warwick, as Drinkard Sisters e por aí vai. Vocalista respeitada e vencedora do Grammy de melhor álbum gospel de 1997, Cissy é a cantora de apoio mais respeitada do vinil, disputadíssima por diversos artistas. Foi uma das famosas backing vocals de Elvis Presley e da própria dinastia Franklin – busque no iTunes o clássico de Aretha “Ain’t No Way”, em que Cissy faz os harmônicos estrondosos de fundo. Acontece que Aretha resolveu regravar um dos maiores sucessos de Dionne exatamente um ano depois do lançamento da original: “I Say a Little Prayer”, do refrão-chiclete “Forever, and ever, you’ll stay in my heart, and I will love you”, e contratou os melhores músicos para fazê-lo (entre eles, Cissy no coro, é claro). Aretha emplacou a canção em primeiríssimo lugar nas paradas, vendeu oito vezes mais do que a antecessora e a coisa apimentou pra valer quando Bacharach, xodó de Dionne, declarou publicamente que a versão de Aretha era bem melhor. Desde então, o hit é muito mais atribuído ao remake da diva gordinha – pior do que isso, só se ela tivesse servido seu cocô numa bandeja, né? 

Entre gossips de bate-bocas nos bastidores de espetáculos e premiações no começo dos anos 1980, Clive Davis (legendário produtor que descobriu, entre outros talentos, Janis Joplin e Santana) contratou Aretha para sua Arista Records, imputando-lhe um mood mais modernex (leia-se “comercial”). À época, adivinha quem era a maior estrela da companhia? Dionne, é claro (ela emplacou 30 hits só naquela fase, quando era produzida por fenômenos midiáticos do porte dos Bee Gees e de Barry Manilow). Aretha teria se recusado a participar da campanha USA for Africa, liderada por Lionel Ritchie e Michael Jackson com “We Are The World”, justamente pelas presenças de Diana Ross, Tina Turner e Dionne, é claro. A rivalidade entre as duas era um negócio lucrativo, mas, dizem, unilateral, já que, exceto pela vez em que foi presa por porte de maconha no aeroporto de Miami em 2002 ou quando decretou falência após levar uma rasteira de um empresário, em 2013, Miss Warwick sempre manteve uma carreira longe dos escândalos e preferiu levar uma vidinha frugal (quando mantinha um apartamento no Rio de Janeiro, seu lugar predileto no mundo, era comum vê-la passeando por Copacabana vestindo camiseta podrinha, bermuda, Havaianas, boné e um cigarrinho – daqueles convencionais mesmo). A coisa ficou preta pra valer quando a prima-sobrinha (quase filha) de Dionne, Whitney Houston (cantora mais premiada da história) morreu afogada na banheira entre especulações de overdose. Presença confirmada no funeral da pop star, Aretha cancelou a apresentação aos 45 do segundo tempo, alegando “fortes dores nas pernas”. Mesmo sabendo da ausência, Dionne, mestra de cerimônias do Home Going, anunciou Aretha e chamou-a ao púlpito, dizem, para forçar um constrangimento público. Os presentes ficaram estarrecidos e a rainha do soul, of course, não perdoou. Aretha assistia pela tevê (as cinco horas do funeral da musa de Kevin Costner foram exibidas ao vivo para o mundo todo, inclusive para o Brasil, no Canal E!), não gostou e enviou um dos seus terríveis faxes (ela jamais foi adepta dos e-mails) à “Associated Press” para explodir uma bomba: jamais fora madrinha de batismo de  Whitney, porque, “apesar do convite durante a gravidez de Cissy, eu estava ocupada demais para batizar a menina quando ela nasceu, mas Dionne sempre se promoveu às minhas custas e espalhou a história do parentesco por aí”. Outra vez, Dionne relevou. Mas, poucos anos atrás, ao tentar cumprimentar Aretha num festival em Nova Orleans, teria sido escorraçada do camarim às lágrimas. Mesmo vexame que passaram as pop stars Patti Labelle ao tentar abraçar Aretha na Casa Branca (jogue no YouTube), ou Gladys Knight ao ser ignorada por ela no Grammy 2016 (também tá na web). 

O legendário produtor Narada Michael Walden, que trabalhou com os maiores fenômenos do pop, escreveu em seu livro “Whitney – The Voice, The Music, The Legend” o trecho que reproduzo abaixo: “À medida que Whitney continuava a sentir o calor de certas acusações oriundas de uma parcela mais desprovida de intelecto da comunidade negra por soar muito branca em suas músicas, seu sucesso estrondoso sofreu outra desvantagem: as músicas que estava fazendo geraram admiração generalizada na indústria, mas também intimidaram alguns de seus colegas. Em 1º de maio de 1989, pouco mais de dois anos depois que pude desfrutar o privilégio de produzir ‘I Know Him So Well’, gravada com sua mãe Cissy, me senti totalmente empolgado com a oportunidade de gravar um dueto com sua madrinha, Aretha Franklin. O local era o estúdio United Sound, na cidade natal de Aretha, Detroit, no estado do Michigan, onde eu estava coproduzindo algumas faixas do seu novo álbum ‘Through the Storm’.Uma delas era ‘Gimme Your Love’, a qual escrevi com Jeffrey Cohen e foi lançado em dueto com sr. James Brown, e a música título, outra dobradinha com Elton John, composta por Albert Hammond (compositor de ‘One Moment in Time’, de Whitney). Esse mesmo time era responsável pelo futuro sucesso R&B de Aretha e Whitney – ‘It Isn’t, It Wasn’t, It Ain’t Never Gonna Be’ que gravaríamos naquela tarde. Quando Aretha chegou vestindo seu casaco de pele, cigarro na mão, eu estava na bancada de mixagem e Whitney, sentada de pernas cruzadas na sala de controle. ‘Oh, oi Rainha!’, eu disse com entusiasmo. ‘Onde ela está?’, veio a resposta séria enquanto me olhava de canto de olho. ‘Você quer dizer a
Whitney? Ela está bem aqui’. ‘Aqui’ era do meu lado, exatamente encostada onde Aretha estava. Vagarosamente redirecionando seu olhar para sua afilhada, ela disse, ‘Então você se tornou a senhorita Whitney Houston, hein?’.  ‘Sou eu, titia Ree!’, Whitney murmurou como uma menininha, empolgada e saudosa, projetando um abraço. ‘Mm-hmm’, Aretha assentiu com um olhar latente em seus olhos e virou as costas, como se não a conhecesse desde a infância. ‘Mm-hmm.’ Isso tudo aconteceu muito rápido, mas era como um pugilista olhando para um oponente de cima e dizendo: ‘Você está mexendo comigo em meus domínios, e eu não gosto disso!’. Eu podia dizer que Whitney também não gostou do que estava acontecendo. O rápido olhar que ela me deu quando Aretha olhou para o outro lado silenciosamente sinalizou um constrangedor ‘qual é o problema dela?’. 

“Clive Davis teve a ideia de fazer o dueto de Aretha e Whitney com uma música que retratasse duas mulheres brigando pelo mesmo homem, o que era um pouco ridículo, dada a diferença de idade entre elas. Entretanto, enquanto Whitney concordou em fazer o número e tinha um amor genuíno por Aretha – do tipo ‘ela sempre fez parte da minha família’ –, o espírito competitivo de Aretha era mais profundo. Começamos a sessão e as duas fizeram seu trabalho na frente dos microfones, cantando em turnos, fazendo o dueto e interagindo uma com a outra. Muitos takes foram gravados. No último deles, já a caminho do fim da música – imediatamente após a Rainha cantar num estilo jazz, Whitney alcançou um daqueles seus vocais impressionantes, muito difíceis de se equiparar, quem dirá de superar. Sem dúvida ela ainda estava chateada com a forma como estava sendo tratada e isso ficou mais evidente quando, assim que seu trabalho estava completo, me deu um abraço afetuoso, disse um rápido adeus à sua madrinha, e deixou a sessão mais cedo. Me senti um tanto estranho, mas, sem pausar para respirar, Aretha virou para mim e ordenou: ‘Vá para a parte onde ela deu aquele agudo e me coloque em cima’. E foi o que fizemos. Aretha recuou e apresentou um riff absolutamente fenomenal antes de dizer ‘De novo!’. Ela jamais trabalhara dessa forma, mas acabamos repetindo oito vezes aquela parte para ter certeza que, onde Whitney tinha acabado de nocauteá-la  – e a todos os outros –, tinha conseguido se igualar. Logo após deixar o estúdio, Aretha me ligou enquanto eu estava checando a gravação. ‘Fui muito dura com ela?’. ‘Sim, foi’. Aretha se sentiu mal com a situação, e eu soube que ela havia ligado para a Whitney para se desculpar. E eu a respeito por isso.” 

Meu encontro com a rainha do soul

Se você é daqueles que não suportam fãs histéricos, pare de ler imediatamente. Apesar do gosto musical duvidoso dos meus pais (e de boa parte dos pais de qualquer criança branca classe média baixa nascida na segunda metade dos anos 1970), entre uma bolacha e outra do Agnaldo Rayol e da Nalva Aguiar, havia, no armário de discos, um compacto simples de Aretha, com apenas uma faixa de cada lado, que eu rabisquei inteira. Não havia fotos dela, já que se tratava de um promo do bom e velho jeans US Top (você comprava uma calça, bermuda ou camisa xadrez e ganhava o disco, daí ele ter aparecido lá em casa). Como eu ouvia aquilo mais do que o Balão Mágico e o Patati Patatá – até o dia de sol escaldante em que deixei minha pequena vitrolinha portátil ao lado da piscina Regan e ele ganhou umas lombadas imensas que qualquer agulha seria capaz de escalar –, taí a gênese da minha adoração por essas mulheres fortes e seus harmônicos fabulosos. 

Fast forward. Era o meu aniversário de 30 e poucos quando o André deixou sobre meu criado-mudo um envelope debaixo de uma caixinha de um dos meus chocolates favoritos, o Cherry Brandy – aquele bombom de cereja da Kopenhagen que vem com um papelzinho amarelo escrito “cuidado, pode haver caroço” (devo ter devorado 3 milhões deles ao longo da vida e jamais encontrei uma sementinha sequer, mas, agora, por mera curiosidade, digitei no Google e achei até o processo de um consumidor do Rio Grande do Sul que quebrou um dente com a iguaria). Dentro do envelope, tickets para Nova York + reservas em um dos meus hotéis prediletos, o St. Regis, e, o principal: um par de ingressos para ver a maior lenda viva da música no Radio City Music Hall, sonho antigo. Aretha acabara de voltar de um breve afastamento após o diagnóstico do câncer e anunciava um novo álbum, logo depois deste show de retorno. Meu bilhete premiado da loteria não demorou a escorrer pelo ralo: a nevasca naquele ano, uma das piores do século, fez The Queen of Soul cancelar o concerto de janeiro. Em comunicado à imprensa, ela tentou consolar a audiência, que esgotou os ingressos em apenas um dia: “Minha Nova York querida, adoraria estar brincando na neve com vocês, mas a tempestade está tão forte que é melhor que a gente não saia de casa. Estou pronta para vocês e continuo aquecendo os motores. Em breve vamos cantar juntos”. 

Nova York é o meu lugar no mundo e, sempre que posso, arranjo uma desculpa para ir pra lá (e vou bem menos do que gostaria, confesso). Mas, como o motivo principal daquela trip-presente era justamente o espetáculo da diva, administramos a frustração e passamos a pleitear os reembolsos de todo o esquema que o André armara. O Radio City nos ofereceu então seu melhor upgrade caso revogássemos a decisão: Aretha reagendara o concerto para junho e assistiríamos na primeira fila. Recuperamos o sorriso, reprogramamos tudo e vieram os seis meses mais longos da minha vida. Apesar do calor senegalês – coisa da qual eu, na condição de urso polar, tenho ojeriza desde que o sol derretia meus vinis –, foram dias memoráveis. Os melhores espetáculos da Broadway, os melhores restôs, todo o circuito underground, as melhores cias – André, à época editor-chefe da “L’Officiel”, combinou de se encontrar com seus pupilos da revista naquela ocasião, gente jovem, sacudida e louca por um beco alternativo. Pudemos desvendar o lado C de Manhattan como nunca havia visto, incluindo o hecatômbico Escuelita, buraco onde Madonna aprendeu a dançar vogue. Shows, ateliês, espetáculos off-Broadway. Perambulando pra lá e pra cá a caminho do St. Regis, entre a Madison e a 5th Avenue, fazia questão de passar em frente ao Radio City todos os dias só para ler no letreiro o nome da minha heroína. Naquele sábado, 15 de junho de 2014, chegamos ao teatro nada menos do que três horas antes do show (ansiedade sagitariana é pior que nevasca). Na lateral do Radio, uma limusine preta estacionara na frente de um daqueles ice cream trucks bem vagabas, típicos dos filmes B de terror americano em que o palhaço assassino desce com uma machadinha atrás da menina virgem. Pela fresta do vidro fumê levemente abaixado, pude reconhecê-la, com a cabeça enrolada num lenço à moda das estrelas do cinema dos anos 1950, empunhando um sorvetão pink fluorescente-acidulante-estabilizante-flavorizante-corante maior do que a Estátua da Liberdade. Perdi o ar. Aos poucos, uma multidão respeitosa (empunhando capas de discos e cartazes, mas sem histerias ou pedidos de autógrafos, bem diferente daquelas que querem arrancar um naco do Luan Santana), cercou o carro como se houvesse um escudo invisível ao redor dele – André e eu éramos os mais próximos, mas logo nos tocamos e demos cinco passadas atrás, sem deixar de manter a nossa vantagem. Daí ela desceu, com uma majestade inacreditável até para nós, habituados a entrevistar estrelas internacionais, saudando seu público – que continuava contemplando à distância, entre elogios e chuvas de pétalas. Não resisti ao ataque de veadagem, gritei e a rainha acenou, me cumprimentou (mico registrado num vídeo que postei no Instagram sem nenhuma vergonha na cara, com meus “Hey, Queen” e “Areeeetha, we love u”), e eu quase capotei. Freud ou Jung já devem ter explicado a devoção dos tietes. Se você souber algo a respeito, me conte, porque nunca tive tempo para fazer análise (juro que tentei). Enquanto isso, seja lá qual for o diagnóstico, segue uma declaração de amor do fundo do meu coração, abastecido por coronárias recheadas de manteiga Aviação e Cherry Brandy: Aretha foi uma das mulheres que mais me inspiraram na vida e, embora eu não cante nem “Atirei o Pau no Gato”, há muito dela em tudo o que faço – inclusive nesta Pop-se. Que a última grande diva descanse em paz. 

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