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Papel ou digital? Quando vamos saber?

Certas revistas serão sempre necessárias, porque alguns artigos, ensaios, fotos, críticas, ficção, estarão sempre ali, à sua mão, para serem vistas, revistas, relidas. Acrescentam à nossa vida. Mas a superficialidade moderna recomendará: deixe de ser acumulador

Claro, se nossa Educação e Cultura fossem boas, aprimoradas, não o retrato de governos incompetentes, ineficientes e corruptos, não a ruína em que  mergulhou, a seleção seria natural. Uma coisa saudável será o expurgo natural que teremos. Ou não? As mediocridades continuarão a nos chegar pelo digital? Não há como evitar.

 

Sabe-se que o primeiro relato literário do mundo, “A Epopeia de Gilgamesh”, escrito no século 6 antes de Cristo na Mesopotâmia, surgiu contado em 12 placas de argila. Assim, este pioneirismo de milênios já “trazia” uma novidade que, no futuro, ou no futuro do futuro, seria comum – ou seja, os folhetins, a publicação de um romance em série ou capítulos nos jornais, que antecederam os filmes seriados dos anos 1940 e 50, e hoje estão na estrutura das telenovelas ou nos seriados da Netflix e HBO. No mundo, tudo se transforma.

Ao longo da história da humanidade, a escrita ou as representações gráficas usaram diversos suportes: das paredes das cavernas pré-históricas aos monumentais templos e palácios egípcios, aos vasos gregos e romanos, a placas, pedras, papiros, cascas de árvores, linhos, ferro, cobre, pergaminhos, couro, e, finalmente, ao papel. Os grafites dos descolados de hoje nos muros, paredes, fachadas de casas e prédios, nos remetem de volta à pré-história.

O papel vem tendo longa duração. A descoberta da prensa móvel por Gutenberg (eu a vi, em um museu de Mainz, Alemanha, e me emocionei) possibilitou a democratização da leitura, antes acessível apenas a altos dignitários, a sumos sacerdotes, enfim, a uma reduzida elite. Com a prensa, foi possível a edição de livros em maiores tiragens, depois de revistas e jornais, até a imensidão de publicações que assolam as bancas do mundo inteiro. Chegamos a um ponto em que olhar para uma banca é ficar perplexo com a variedade de ofertas de informações (informação é cultura, inteligência; para que serve a informação, ou muita, muitíssima informação?). Deste modo, por décadas e décadas fabricou-se e gastou-se toneladas e toneladas de papel, até o momento em que os ambientalistas decretaram: o papel é o fim das florestas, traz a devastação, a mudança do clima, a emissão de carbono e outros malefícios sobre os quais lemos e relemos a cada dia, e sobre os quais ninguém se incomoda, se importa. Deixa pra lá, dizem os governos canalhas de todo o mundo.

Agora, convenhamos: há um bocado de publicações que não precisariam existir. Sem querer ser censor (já sofri muito com a censura), cada um lê o que quer. Claro, se nossa Educação e Cultura fossem boas,  aprimoradas, não o retrato de governos incompetentes, ineficientes e corruptos, não a ruína em que  mergulhou, a seleção seria natural. Uma coisa saudável será o expurgo natural que teremos. Ou não? As mediocridades continuarão a nos chegar pelo digital? Não há como evitar.

O grande impasse para as revistas e os livros surgiu com a evolução do digital. O chamado “suporte” mudou inteiramente. Os jornais decaíram com a leitura do noticiário pela internet, pela telinha, pelo notebook, pelo tablet, pelo Kindle, pelo celular.

A notícia surge hoje no mesmo momento em que é gerada. Está todo mundo ligado – ao que é bom, ao que não presta. Há o transeunte que passa e filma com o celular o assalto ao banco, ou a chegada de um famoso ao aeroporto, ou uma celebridade almoçando (e o que interessa uma celebridade almoçando se não estamos à mesa com ela, por ser nossa amiga, ou termos sido convidados por alguma razão?), e assim por diante. Em dois segundos, a notícia vem de Pequim, Moscou, Afeganistão, Bueno de Andrada, Bombai, São Leopoldo. O digital coloca você no centro do mundo no mesmo instante. E daí? Em que isso vai mudar sua vida?  Vai contribuir para seu crescimento, melhoria de vida, cultura?

O papel, para mim, terá sempre uma vantagem. O que ele traz para ser lido, visto, já vem comentado, amaciado, aplainado, explicado, se for uma boa imprensa. Certas revistas serão sempre necessárias, porque alguns artigos, ensaios, fotos, críticas e ficção estarão sempre ali à sua mão para serem vistas, revistas, relidas. Acrescentam à nossa vida. Mas a superficialidade moderna recomendará: deixe de ser acumulador. Você vai precisar de espaço, enquanto o digital estará sempre à disposição nas clouds, ou nuvens, ou seja lá o que é esse arquivo imenso que fica no fundo do mar, me disseram.

O papel ou o digital? Há prós, há contras, há amores e desamores, o importante é que não se percam os sabores. Ainda é cedo para saber o que vai acontecer. Dar tempo ao tempo, cada um decidirá. A questão do papel envolve sentimentos, pessoalidades (é isso mesmo, pessoalidades), caprichos, manias, facilidades. Papel pode ser fetiche – você compra pelo cheiro, e há papéis que, misturados às tintas, são fascinantes, chegam a ser sensuais. Há o virar a página e principalmente riscar embaixo de frases, pensamentos, palavras. Digam o que quiserem, sinto-me bem ao me ver rodeado, abraçado, agasalhado pelos meus livros, pelas revistas e jornais amontoados pelo chão, envelhecendo comigo, mostrando o que fui, pensei, gostei e desgostei em determinado momento.

Quando olho minha estante, vejo as capas. Variadas. Olhando os tablets nas estantes, verei riscos pretos – tablet não tem lombada, é fino. Quase nada. Sensações absolutamente pessoais? Claro que sim. Tenho medo de ser nostálgico em vez de moderno. Nem sei se o moderno é bom. Não me vejo sem ir à padaria de manhã com um jornal na mão, ou uma revista, abrindo sobre o balcão enquanto o cliente ao meu lado fila “minhas” notícias. É um compartilhamento. Claro, há quem reclame, o senhor ocupa o espaço de dois, impede que outro tome café no balcão. É domingo, todos têm tempo, por que o sujeito não pode esperar um pouco, ou sentar lá fora, etc.? Justificam: lá fora não tem televisão. Aliás, outra coisa que eu gostaria que desaparecesse. Tevês em bares e, principalmente, em cafés da manhã dos hotéis, ligados no volume máximo. Digital ou papel? Os dois, por enquanto. Para meus netos tenho dado livros “normais” (vejam a que ponto chegamos) e livros e revistas digitais. A um toque, surgem ilustrações que se movem, crescem, divertem, ameaçam. Tudo que li volta animado. Só que desenvolvi, aumentei minha fantasia e imaginação com livros, revistas, textos, desenhos. E papel. E assim publiquei 45 livros até agora.

Sinto-me bem ao me ver rodeado, abraçado, agasalhado pelos meus livros, pelas revistas e jornais amontoados pelo chão, envelhecendo comigo, mostrando o que fui, pensei, gostei e desgostei em determinado momento


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